Uma história de lutas por liberdade e democracia

PERFIL[br][br]Ruy Mesquita, diretor de Opinião do Grupo Estado

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2010 | 00h00

Liberal e democrata, como costuma se definir, o jornalista Ruy Mesquita sempre batalhou em defesa da liberdade e da democracia, em seus 62 anos de profissão. Chegou à Redação como repórter em 1948 e ocupou os cargos de redator, editor de Internacional e diretor do Jornal da Tarde, fundado sob sua orientação em janeiro de 1966. Assumiu a direção do Estado em 1996, após a morte de seu irmão Julio de Mesquita Neto, com quem dividia a responsabilidade pela orientação editorial.

Fiel aos ideais do pai, Julio de Mesquita Filho, falecido em 1969, Ruy Mesquita atribui o sucesso do jornal à coerência ao longo de sua história, "à custa de sacrifícios materiais sofridos pela empresa e de sacrifícios pessoais sofridos pelos seus diretores", conforme lembrou na comemoração dos 130 anos de fundação, em 2005. "O Estado de S. Paulo nunca pôs interesses empresariais antes de interesses políticos, antes da defesa dos interesses nacionais", afirmou.

É uma trajetória, acrescentou, marcada por Julio Mesquita (o patriarca) e "seguida fielmente pelos seus filhos, netos e bisnetos". No caso do neto Ruy Mesquita, a luta começou cedo, em 1932, quando seu pai foi preso e exilado em Portugal, com a família, depois da derrota da Revolução Constitucionalista.

A dose repetiu-se em novembro de 1937, após o golpe de Getúlio Vargas que instalou o Estado Novo. Julio de Mesquita Filho foi preso 17 vezes seguidas e novamente exilado, dessa vez sozinho, para a França, de onde se mudou para a Argentina, na véspera da Segunda Guerra Mundial. Voltou ao Brasil em 1943 e foi confinado na fazenda da família em Louveira, enquanto o Estado continuava ocupado pela ditadura. Invadido pela polícia em março de 1940, o jornal só foi devolvido a seus proprietários em dezembro de 1945.

Como estudante da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo, curso que não concluiu, Ruy Mesquita participou ativamente de manifestações de estudantes contra Getúlio Vargas. Saiu às ruas em passeatas e liderou protestos contra o regime. Vinte anos mais tarde, ele foi, ao lado do pai, um dos articuladores civis do movimento de 1964. Mais do que a ameaça do comunismo, "um risco real e iminente", o que levou à derrubada do presidente João Goulart foi, em sua opinião, a quebra da hierarquia militar.

Contragolpe. O jornal apoiou o golpe - ou contragolpe e contrarrevolução, como Ruy Mesquita prefere dizer -, mas rompeu com o regime após a edição do Ato Institucional n.º 2, que cancelou as eleições de 1965. Pagou um preço alto por sua resistência à arbitrariedade. Em dezembro de 1968, quando denunciou o autoritarismo do AI-5, os censores se instalaram nas oficinas gráficas do Estado e do Jornal da Tarde. "O preço que pagamos foi, em primeiro lugar, a vida de meu pai", disse o jornalista em março de 2004, referindo-se à morte de Julio de Mesquita Filho, ocorrida sete meses após a edição do AI-5.

O jornal não fez autocensura e, resistindo à censura prévia, preencheu com versos de Os Lusíadas, de Camões (Estado), e receitas de bolos e doces (Jornal da Tarde) o espaço do material censurado. Ruy Mesquita protestou, em telegramas ao ministro da Justiça e outras autoridades, contra a censura. Mais de uma vez, foi intimado a depor na Polícia Federal e processado na Justiça Militar por causa das matérias censuradas. E, quando repórteres e redatores foram presos, saiu em defesa deles.

Após o fim da censura, Ruy Mesquita continuou atento a gestos e iniciativas que, com frequência, ameaçam a liberdade e a democracia. Essa é a linha dos editoriais da página 3 do Estado, que como diretor de Opinião ele orienta pessoalmente, pautando os temas e conferindo os textos a serem publicados. São seis horas diárias de trabalho, uma rotina que vem cumprindo, com orgulho, há mais de 40 anos.

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