Uma leitura do zôo

O biólogo Guilherme Domenichelli antecipa informações que serão publicadas em livro

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

20 Outubro 2008 | 00h00

Elefante bebe água pela tromba? Crocodilo tem lágrimas? Uma sucuri pode mesmo engolir um boi? Não é só para os bichos que o biólogo Guilherme Domenichelli tem olhos e ouvidos quando caminha pelo Zoológico. "As perguntas e comentários mais curiosos que ouço das crianças ficam bem marcados", diz ele, que trabalha no Zôo desde 2001 - começou como estagiário, quando estava no 3º ano da faculdade. As dúvidas mais curiosas serão respondidas no livro Girafa Tem Torcicolo?, que deve ser lançado no mês que vem pela Panda Books. Domenichelli cultiva desde pequeno o hábito de compilar informações instigantes do mundo animal. Aos 9 anos, adorava passear no sítio do avô, em São João da Boa Vista, onde passava horas observando a natureza. Depois, pesquisava sobre a vida dos animais em livros e anotava num caderninho. "Tudo que eu sabia, colocava lá. Tenho-o guardado até hoje". O livro, de certa forma, é uma versão bem-acabada desse seu caderno - com a diferença de que agora quem escreve é um biólogo do Zôo, e não um menininho curioso. Bastante comunicativo, desde agosto Domenichelli apresenta o programete Passeio Animal, quadros de 5 minutos distribuídos ao longo da programação da TV Rá-Tim-Bum. A experiência tem lhe rendido uma certa fama entre a criançada. É comum que ele seja reconhecido como "o tio da televisão", quando circula pelo Zôo. E, óbvio, acaba virando alvo de novas inquietantes perguntas. Por que urubus não têm penas na cabeça? "Não é doença, como muitos pensam", explica. "Trata-se de uma adaptação. Como come carniça, se ele tivesse penas, se sujaria todo. E não teria como se limpar, atraindo moscas." As girafas deitam para dormir? "Nunca. Dormem em pé. No máximo, dobram as pernas e se apóiam sobre elas. Cabeça encostada no chão é sinal de que está doente." Qual a diferença entre cágado, tartaruga e jabuti? "Todos são répteis quelônios. Mas a tartaruga, em geral, vive no mar; os cágados em água doce; e os jabutis são terrestres." Nos fins de semana, é comum que aceite convite de amigos e familiares para passear - adivinhe! - no Zoológico. "Não tem jeito. Acabo virando o monitor da turma", resigna-se, bem-humorado. E dá-lhe perguntinhas. Por que cobras e boa parte dos lagartos mostram a língua? Não é sinal de má-educação. "São animais que sentem o cheiro pela língua. Captam o odor do ambiente e levam para um órgão no céu da boca", afirma. Qual a diferença entre camelo e dromedário? Essa é fácil. "A principal é o número de corcovas. Camelo tem duas; dromedário, uma." E entre crocodilo e jacaré? "Os primeiros têm focinho longo e estreito. Nos jacarés, o focinho é curto e arredondado." Foca ou leão-marinho? "A principal diferença é que, fora da água, a foca não consegue se apoiar nas nadadeiras dianteiras e, ao contrário do leão-marinho, anda se arrastando." Animado com a estréia no mundo dos livros, Domenichelli já prevê novos títulos sobre o mesmo tema. "Tenho me preocupado em anotar mais os comentários que ouço", revela ele, que mantém em sua casa, em Santo André, um rottweiler, 12 periquitos australianos, 13 tartarugas e 3 jabutis. E, para ninguém reclamar de pergunta sem resposta: 1) A tromba do elefante é um prolongamento do nariz. Pode sugar até 8 litros de água - que depois será esguichada na boca ou no corpo; 2) Quando mastigam, crocodilos e jacarés pressionam as glândulas lacrimais; por isso o "choro falso"; 3) Sucuris realmente expandem muito o maxilar, mas não o suficiente para engolir um boi - no máximo, um bezerro. E o torcicolo das girafas? "Em cativeiro, acontece. Quando sedamos uma para fazer algum exame, é necessário acomodar o pescoço direitinho. Senão, vai ficar dolorido quando ela acordar."

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