Uma nova chance para o Rio Tietê

Cercado de prédios e com milhares de carros circulando por suas marginais diariamente, o Rio Tietê, em São Paulo, nem de longe é lembrado quando se fala em lugares bonitos ou especiais da cidade. Mas o longo processo de despoluição e revitalização do rio, que, conforme o anunciado só deve terminar em 2006, já traz uma notícia para os paulistanos se encherem de orgulho: nesta quinta-feira, um barco, levando a bordo especialistas em recursos hídricos, bacharéis em turismo e jornalistas, percorrerá o Tietê da altura do Cebolão até o Rio Tamanduateí. O objetivo é mostrar a navegabilidade do rio e sua utilização para o turismo e como via de transporte público.?Vejo a cena de uma família fazendo esse roteiro?, imagina o secretário- executivo de Turismo de São Paulo, Marco Antonio Castello Branco, contando que passeios pelo rio eram comuns no início do século passado, quando os clubes da cidade promoviam torneios de canoagem e as pessoas podiam contar com águas limpas para nadar.Segundo ele, a existência no Estado do circuito turístico Hidrovia Tietê-Paraná ? que reúne 86 municípios em 900 quilômetros navegáveis ? chamou a atenção para que a capital também cuidasse do Tietê, que em São Paulo sempre esteve associado à sujeira e esgoto. E, com o aumento da profundidade do rio, a idéia de dotá-lo de um passeio de barco e de usá-lo como alternativa para o sistema de transportes foi inevitável.No tour experimental será utilizada uma embarcação para 40 pessoas, que opinarão na criação de um roteiro para turistas. O passeio entre o Cebolão e o Rio Tamanduateí deve durar três horas, mas ainda não se sabe quantos quilômetros serão percorridos no trajeto. ?Muita coisa será definida no passeio de hoje e o que queremos é que o programa esteja disponível o mais rápido possível, de preferência ainda este ano?, diz Castello Branco. De acordo com ele, tudo dependerá do interesse da iniciativa privada, que receberá concessão do governo para operar o passeio. ?Nossa responsabilidade era até o planejamento do circuito. Agora cabe à iniciativa privada realizar o passeio e construir, por exemplo, píeres para os passageiros?, explica.Bandeirantes O Rio Tietê também é uma das estrelas do Roteiro dos Bandeirantes, que inclui Santana de Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Cabreúva, Itu, Salto, Porto Feliz, Tietê e Araçariguama. A rota, criada em novembro do ano passado, refaz o caminho dos bandeirantes, que desbravaram o interior do Estado. Eles saíam de São Paulo e, até Porto Feliz, seguiam a pé ou no lombo de burros, já que o leito do Tietê por aquelas bandas não era propício à navegação. No caminho foram nascendo vilas, as atuais cidades que compõem o roteiro.Além de organizarem uma agenda conjunta para divulgar seus atrativos históricos, culturais e ecológicos, as cidades também estão com um projeto turístico para navegação no Rio Tietê, que está a cargo do Departamento de Navegação Fluvial da Faculdade de Tecnologia (Fatec) de Jaú, no interior paulista. O objetivo é levantar as condições de navegabilidade e a rota a ser seguida pelas embarcações. Durante esses estudos ? já realizados em Pirapora do Bom Jesus e em Santana de Parnaíba e que devem ser feitos em breve em Araçariguama e Cabreúva ?, descobriu-se que, apesar da poluição, sobrevivem no rio espécies como cascudos e cabojas.?Mesmo nessas condições, a natureza consegue se manifestar?, afirma o diretor da Fatec, Antonio Eduardo Assis Amorim, que conta que, além de peixes, a área guarda garças, marrecos, outros animais silvestres e até belas paisagens naturais.AerobarcoA Fatec também fez o projeto preliminar de um aerobarco, em que a hélice fica acima da água, impedindo que o lixo do Tietê ? garrafas PET, sacos plásticos, madeira, pneus etc ? se enrosque na hélice. A embarcação, para 30 passageiros, prevê ainda ambiente climatizado e restaurante a bordo. De acordo com o diretor da Fatec, o custo de cada aerobarco é entre R$ 50 mil e R$ 60 mil.Em Pirapora ? famosa pela espuma que se acumula sobre o Tietê por causa de detergentes e resíduos poluentes ?, o projeto está bem adiantado. Tanto que já se fala em tentar oferecer os passeios ainda este ano. Um deles iria da cidade à Usina de Rasgão, perfazendo 14 quilômetros entre ida e volta. E haveria uma segunda opção, mais curta. ?Queremos reviver a situação de 15 anos atrás, quando havia até fila para fazer passeio de barco na cidade?, diz o responsável pela Secretaria de Emprego e Desenvolvimento Econômico de Pirapora, Ailton Paulo Pinto.?A revitalização do Tietê e o interesse que ele tem despertado nas pessoas é o pagamento de uma dívida com um rio que foi fundamental para a colonização e o desenvolvimento do País?, atesta a secretária-executiva do Roteiro dos Bandeirantes, Maria Helena Scavone. ?Essa rota, que mostra as marcas do bandeirantismo, é a chave para resgatar o orgulho dos paulistas?, conclui a secretária.

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