Uma nova versão de coronelismo e o fenômeno chamado Dilmasia

Auditório lotado. O ex-governador Aécio Neves cita, um a um, os nomes de lideranças da região do Alto Paranaíba, na cidade de Patos de Minas. Candidato à reeleição, o atual governador de Minas, o tucano Antonio Anastasia, pede que todos "arregacem as mangas e andem de porta em porta" pedindo votos para a coligação do PSDB. Bem menos familiarizado com os nomes dos caciques locais, José Serra (PSDB) promete: "Eu vou ser o mais prefeito entre os presidentes da República."

, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2010 | 00h00

Semanas antes, ao lado da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, o ex-ministro Hélio Costa (PMDB), que concorre ao governo de Minas, acusou o governo estadual de aliciar os prefeitos da região, condicionando a liberação de verbas ao apoio a Anastasia. O encontro dos candidatos com prefeitos e lideranças políticas acabou esvaziado. Apenas oito prefeitos compareceram ao ato com Dilma.

Com 853 municípios, a grande maioria com menos de 15 mil habitantes, Minas Gerais revive uma espécie de coronelismo, em que a liderança do chefe do Executivo é considerada fundamental para um bom desempenho eleitoral no segundo maior colégio do País, com 14 milhões de eleitores.

Formada por uma ampla rede de partidos (12 ao todo), a coligação liderada pelo PSDB confia no apoio de cerca de 650 prefeitos. Já a coligação PMDB/PT/PC do B/PRB contabiliza 238 prefeitos eleitos ou reeleitos em 2008.

O deputado Nárcio Rodrigues (PSDB), um dos coordenadores políticos da campanha de Aécio e Anastasia, ironiza as acusações dos adversários e explica: "Há uma certa tendência governista das lideranças municipais. O Palácio da Liberdade não perdeu uma eleição desde 1982." A exceção, recorda, foi com o também tucano Eduardo Azeredo, em 1998, derrotado por Itamar Franco, hoje no PPS e na coligação de Aécio e Anastasia. "Todo prefeito quer estar bem com o governo. A sedução em Minas é feita como exercício da competência administrativa. Não há perseguição nem discriminação a nenhum prefeito", argumenta.

O exército de aliados, segundo Aécio Neves, "até agora estava adormecido", mas vai garantir a vitória a Anastasia. Hélio Costa reage e afirma que PT e PMDB controlam 80% das maiores cidades com mais de 200 mil habitantes.

Cooptação. "Os prefeitos das cidades pequenas são muito assediados pelos convênios oferecidos pelo Palácio da Liberdade. Nós temos instruído os nossos prefeitos para que assinem os convênios. Não se pode prejudicar uma cidade por conta do processo eleitoral. Isso não quer dizer que o prefeito esteja sendo cooptado. O palácio pode até achar que está cooptando. Mas está enganado", diz o peemedebista.

No entanto, na lógica eleitoral, lembram prefeitos, para o Executivo municipal costuma falar mais alto a "caneta" do administrador estadual ou federal, independentemente da agremiação partidária. Nesse aspecto, a aposta é que boa parte dos prefeitos mineiros seja seduzida pelas lideranças do presidente Lula e do ex-governador Aécio Neves, detentores de altíssimos índices de popularidade em Minas Gerais.

"Aqui no Estado, como em nível nacional, a ideia é que não deve sofrer interrupção aquilo que está caminhando bem", observa José Antônio Prates (PTB), prefeito de Salinas, no norte de Minas. Entusiasta do fenômeno "Dilmasia", espécie de nova versão do "Lulécio" - o voto simultâneo em Lula para presidente e Aécio para governador, que marcou as eleições de 2006 no Estado -, o prefeito acredita que o apoio a Anastasia e Dilma é marcante principalmente nas regiões pobres do norte mineiro e vales do Jequitinhonha e do Mucuri, com 157 municípios e cerca de 2,7 milhões de habitantes.

"Se a Dilma estadualizar sua campanha e se o Aécio federalizar a campanha do Anastasia, ambos saem perdendo", avalia Prates, que, justamente por ter sido um dos líderes do Lulécio, foi expulso do PT.

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