Uma unanimidade vai bater ponto no gabinete de Aécio

Mozart Viana de Paiva, ex-secretário da Mesa da Câmara

Denise Madueño / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

Depois de duas décadas atendendo a demandas de 513 deputados, Mozart Viana de Paiva deu uma guinada na vida e entrou em 2011 enfrentando o desafio de responder a um chefe só. Desde a semana passada, o ex-secretário da Mesa da Câmara ocupa uma sala no 11.º andar do prédio mais alto do Senado, auxiliando um político de pretensões superlativas.

Potencial candidato à Presidência, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) levou Mozart para seu gabinete e, com ele, foram também a memória e a história política e legislativa do Congresso desde os trabalhos da Assembleia Constituinte.

Em território de conflitos e disputas permanentes, aos 59 anos Mozart conseguiu ser unanimidade em elogios. Nos últimos 20 anos, a oposição virou governo, as circunstâncias políticas mudaram, mas em qualquer delas Mozart foi convidado a permanecer como titular da Secretaria-Geral da Mesa. Entre tantas qualidades apontadas pelos deputados - "preparado", "dedicado", "servidor ideal", "conhece como ninguém o regimento" - uma resume sua postura perante o Congresso: "Ele tem o espírito institucional."

Nascido na pequena Corinto, de 24 mil habitantes, - "o portal do sertão mineiro", ele define, citando Guimarães Rosa -, Mozart foi mandado aos dez anos para estudar interno em um seminário franciscano, no sul de Minas. Chegou a Brasília em 1969, quando começou a trabalhar como auxiliar de escritório na empresa Synteko. Passou pela divisão de inspeção de origem animal do Ministério da Agricultura e, aprovado em concurso para a Câmara, foi parar na área administrativa.

Trabalhando em um campo político minado, Mozart tem um lema que o mantém em permanente estado de alerta desde que foi trabalhar na comissão que elaborava a redação final dos projetos aprovados. "Uma vírgula pode mudar o sentido do texto", sentencia.

Surgiu nessa época a prática de estudar com antecedência e com rigor todos os projetos que iam para a ordem do dia, acompanhar as votações, para depois saber exatamente o sentido que os deputados quiseram dar às emendas aprovadas à proposta.

Discrição total. Foi esse currículo testado que Aécio contratou. "Não conheço ninguém que reúna um conjunto de qualidades como Mozart. Ele tem conhecimento profundo do funcionamento do Parlamento, do regimento, da política. Tem uma discrição absoluta, simplicidade e humildade mineiras e uma respeitabilidade muito grande", resumiu o senador e ex-governador de Minas.

A avaliação do tucano não se choca com o depoimento de um petista. Em fevereiro de 2003, o deputado João Paulo Cunha (SP) deixou de ser o líder do PT para assumir a presidência da Câmara já com Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto.

"Na oposição, muitas vezes tínhamos diferenças com a Mesa na análise do regimento e no encaminhamento das questões. Sabíamos que a interpretação da secretaria não tinha o objetivo de nos prejudicar e o Mozart acabava nos convencendo de que a interpretação da Mesa era a mais condizente com o regimento", relata João Paulo, presidente da Casa de 2003 a 2005.

Antes dele, vieram Ibsen Pinheiro (PMDB), Inocêncio de Oliveira (à época no PFL), Luís Eduardo Magalhães (PFL, o antigo DEM), Michel Temer (três mandatos de presidente, PMDB), Aécio Neves (PSDB), Efraim Morais (apenas por dois meses, PFL). A partir de 2005, sucederam no cargo Severino Cavalcanti (PP), Aldo Rebelo (PC do B), Arlindo Chinaglia (PT) e Marco Maia (PT), com a saída de Michel Temer para a Vice-Presidência da República.

O grande temor de Mozart e motivo de maior tensão no cargo é o erro. "Votou está votado. Não dá para dizer: "Eu errei, dá para votar novamente?"."

Com a consciência das repercussões políticas, o assombro de Mozart vinha em mais alta potência. "Um erro pode ser até pequeno, uma imprecisão, mas se ele se cruza com um fato político pode ter consequências imprevisíveis", diz.

Para evitar o que chama de imprevisibilidade, Mozart sempre se antecipa. Estudava em casa minuciosamente cada votação, procurando identificar todos os questionamentos regimentais que poderiam ser feitos, todas as vírgulas que poderiam ser colocadas no processo. Às 8 horas, quando chegava à Câmara, Mozart já tinha lido a resenha dos jornais, extraído tudo que poderia ser explorado no processo legislativo e analisado os pontos nevrálgicos.

Não bastaram as 14 horas de trabalho na Câmara? Ele leva os papéis para analisar em casa. De hábitos simples, Mozart não frequenta a alta cúpula do poder nem circula nos ambientes festivos de Brasília. Na Secretaria-Geral da Mesa, nunca fez distinção de quem o procura. Em sua sala, qualquer um sempre encontrou acesso. Não há barreiras. Precisou falar com o secretário-geral por telefone? É só ligar, a qualquer hora e a qualquer dia, não importa se é feriado, domingo, Natal, carnaval ou Sexta-Feira Santa.

O resultado positivo é dividido com o grupo. "É impossível fazer um bom trabalho sem uma boa equipe trabalhando junto. Não é bom-mocismo, não. É real. A equipe é dedicada e trabalha afinada", diz o ex-chefe. A admiração é recíproca. Funcionários da secretaria contam que Mozart assume como seus os erros eventualmente cometidos por um membro da equipe. Entre os auxiliares há uma visão de um Mozart centralizador.

Eles criaram um código de entendimento interno: "MQV", ou seja, "Mozart Quer Ver". Essa sigla em um documento é certeza de que ele não irá para frente sem o conhecimento do chefe.

"Eu tenho de saber tudo o que acontece. Sou o interlocutor do presidente da Casa e tenho de ter as respostas. Mas não centralizo a execução de tarefas", diz, embora admita ser controlador. "Eu checo tudo para evitarmos problemas. Eu tenho medo da repercussão política de algum erro."

Duas noites e três dias. Da comissão de redação, Mozart foi secretariar os trabalhos da Assembleia Constituinte. Dali, como se fosse natural, assumiu o ritmo de vida que o acompanhou até hoje.

Trabalho em tempo integral, muitos dias sem almoço ou jantar, poucas horas de sono, distância de casa, da mulher e dos filhos. Em abril de 1987, ele se lembra do fato como um recorde, próximo do fim do prazo para entrega dos projetos para a Constituinte, ele ficou trabalhando ininterruptamente por duas noites e três dias para dar conta do volume de sugestões entregues para tramitação.

No mesmo ano, nasceu o terceiro de seus quatro filhos - hoje em idades que variam de 18 a 27 anos. Mozart só foi conhecê-lo no dia seguinte na maternidade por 15 minutos. Uma pilha de trabalho o prendia à Câmara. "Carrego uma certa culpa. Deixei a família de lado e agora quero mudar de vida. Pela família, por mim e pela minha saúde", justifica. O sacrifício pessoal não impede o orgulho de ter participado do processo histórico dos últimos anos. "Vejo meus filhos estudando história e posso dizer a eles que vi o que eles leem nos livros."

Diferentemente da Secretaria-Geral da Mesa, no subsolo, sem janelas, sem ventilação natural e abarrotada de papéis, Mozart agora tem ampla vista para o lago Paranoá, em um espaço com janela envidraçada de parede a parede e do teto ao chão.

Na quinta-feira, em seu terceiro dia formal de trabalho na função de organizar o gabinete de Aécio, Mozart tinha as mesas livres da papelada que sempre o acompanhou e a ausência de um computador. Mas também se livrou da máquina de escrever elétrica, patrimônio de sua antiga sala. Quando não dava para usar da própria caligrafia, Mozart escrevia em uma IBM 82-C.

Mozart não é de mandar e-mails nem participa de redes sociais. "Gosto de olhar nos olhos quando converso. Sou formado em letras, linguística. Sei da importância da entonação da voz e da expressão facial."

Aos antigos assessores que o classificam de avesso à informática, responde que tem apenas cautela com a exposição de dados. No ano passado, um funcionário do centro de informática da Câmara foi escalado para ensiná-lo a tirar maior proveito de seu computador. As aulas não completaram o primeiro mês. "Não dava tempo. A aula começava e o telefone tocava. Eu tinha de atender. As demandas começavam cedo, às 7 horas", explicou. "Agora terei tempo. Vou fazer um curso."

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