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Uma viagem a Tuvalu, a pequena ilha que pode desaparecer por causa do aquecimento global

Com apenas 26 quilômetros quadrados e menos de 13 mil habitantes, quarto menor país do mundo corre risco de ser uma triste memória em um cartão-postal

André Fran*, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2021 | 11h00

Imagens apocalípticas de ilhas em chamas, enchentes arrastando tudo em seu caminho e furacões arrasando cidades inteiras são cada vez mais comuns nos noticiários e nas redes sociais. Infelizmente, parece que a tendência não é melhorar. Pelo contrário. Recente relatório do Painel Intergovernamental sobre o Clima, da ONU, afirma que o planeta vai esquentar 1,5ºC quase uma década antes do esperado. Se não bastasse as tragédias climáticas que saltam aos olhos, ainda tem aquelas tragédias silenciosas.

Com o aquecimento global acelerando, países como o Brasil podem ser vítimas de secas mais intensas, o que afetaria a produção de alimentos. Ou seja: mais fome, mais desigualdade, mais miséria e mais mortes. Mas que atitudes podemos tomar para evitar esse destino desastroso? Nenhuma. Poderíamos ter evitado essa situação caso tivéssemos agido décadas atrás. Agora, o máximo ao nosso alcance é minimizar o estrago.

Foi essa a resposta que recebi ao fazer a mesma pergunta a uma cientista, anos atrás, durante uma viagem a Tuvalu, a pequena ilha-nação que fica no sul do Pacífico. Mas o que fazia eu em Tuvalu? Minha reportagem sobre esse pequeno paraíso tinha começado um tempo antes, justamente durante uma Conferência da ONU para Mudanças Climáticas (COP).

Passeando entre os diversos seminários ecológicos, projetos de ONGs e promessas vazias do evento, toda hora eu ouvia falar nesse pequeno e até então desconhecido país. O quarto menor do mundo que, com apenas 26 quilômetros quadrados e menos de 13 mil habitantes, crescia em importância no encontro porque inúmeros cientistas garantiam que esta será a primeira nação a sumir completamente do mapa por conta do aquecimento global e a subida das marés.

Segundo eles, a população inteira de Tuvalu teria que migrar para a Austrália ou Nova Zelândia e suas belas praias em breve serão apenas uma triste memória em um cartão-postal. Em resumo, Tuvalu vai ser engolida pelo mar. Uma Atlântida dos tempos modernos.

Então, antes que o dia do juízo final ecológico acontecesse para a ilha, fui até lá conferir a situação. O país é menor do que o bairro que eu moro. Sua altitude máxima é de 4 metros. Isso, mesmo. Alugando uma bicicleta, principal meio de transporte dos locais, em poucas horas você atravessa o território de uma ponta a outra. O senso de "viver em comunidade” ganha outra dimensão em um país com essas proporções e em dois dias você já conhece praticamente toda a população.

Para todos os habitantes da ilha, a conscientização ecológica é questão de sobrevivência. E eles fazem questão de transmitir isso para os visitantes. A importância de eliminar de forma adequada os seus dejetos, a obrigatoriedade de levar de volta com você um saquinho com o lixo gerado durante sua estada, o efeito nocivo (para o meio ambiente) das embalagens com alimentos fora da validade… Até porque o impacto da falta de boas maneiras, em termos de sustentabilidade, fica muito evidente na pequena nação tuvalense. O aterro sanitário nacional já ocupa boa parte de um terreno ao norte do país. Queimadas e processos de reciclagem não conseguem dar conta do lixo gerado em ritmo tão acelerado, mesmo com todas as medidas tomada e a noção geral da urgência do problema. Percorrer quilômetros e quilômetros de areia branca e mar azul turquesa e se deparar com aquela parede de lixo é impactante.

É como dar de cara com uma ferida, ou melhor: uma infecção, causada pelo homem em um dos mais belos cenários que a natureza poderia oferecer. O mais revoltante para os locais é saber que o drama particular de seu lixão, por mais representativo que seja do drama que afeta o mundo todo, é apenas uma parte ínfima do seu problema. A emissão massiva de carbono, a poluição descontrolada e o estímulo ao consumo sem limites de algumas das maiores potências do mundo é o que está de fato destruindo Tuvalu. Eles estão pagando por um crime que não cometeram. E os responsáveis reais por seu destino se limitam às promessas vazias em conferências climáticas.

Em Tuvalu, o impacto direto, mesmo que muitas vezes despercebido, das nossas ações na vida de cada pessoa que conheci naquela pequena ilha era emblemático. O tamanho do país, o seu povo alegre, a beleza natural e tudo isso somado, tornava ainda mais desesperador o fato de que somos nós (uns mais, outros menos) que estamos diariamente apertando o gatilho que vai dar fim a essa história.

Desperdício de água, de energia, consumismo exacerbado, poluição, emissão de carbono... No fundo, todos sabemos o que está causando essa tragédia no Pacífico. Mas estamos fazendo algo para de fato mudar o triste destino desse pedacinho de paraíso? Porque Tuvalu nada mais é que o exemplo mais imediato do que pode acontecer com todos nós. Com nossos filhos, com nosso país, com nosso planeta.

Como disse aquela mesma cientista que citei no início do texto: “será que nunca conseguiremos pensar um pouco no drama do próximo? Será que vamos sempre esperar a situação bater à nossa porta para tomar uma atitude quando já for tarde demais?” Para os nossos amigos de Tuvalu, a hora é agora. Eles já estão sofrendo com as consequências das ações dos outros. Cabe a nós tentarmos mudar o destino desse paraíso que está morrendo. Cabe a cada um de nós lutar para que Tuvalu não desapareça. Pois lutar por eles é lutar pelo que há de mais belo no nosso planeta. E é lutar por nós mesmos.

*É DIRETOR, APRESENTADOR DE TV, JORNALISTA E TEM MAIS DE 60 PAÍSES CARIMBADOS NO PASSAPORTE

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