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Uma vida de 136 anos e cada vez mais novo

Fiel aos ideais que nortearam sua fundação, jornal acumulou conquistas em 2010

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2011 | 00h00

Mais um ano de inovações, de conquista de prêmios, de luta contra a censura. O Estado de S. Paulo, fundado em 4 de janeiro de 1875 com o nome de A Província de S. Paulo, completa hoje 136 anos de circulação e 131 anos de vida independente com o compromisso de levar adiante as principais características que marcaram sua trajetória - firmeza e coerência na linha editorial, capacidade técnica e profissional para atender às exigências da comunicação moderna.

 

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O jornal foi sempre ousado e corajoso, desde a fundação, quando nasceu do ideal de um grupo de republicanos, dois anos após a Convenção de Itu (1873), quando se apresentou como um órgão independente, sem nenhuma ligação partidária, embora empenhado na derrubada da monarquia. Viva a República foi a manchete de A Província na edição de 16 de novembro de 1889, numa primeira página que só estampava essa notícia em letras enormes, sem nenhuma ilustração. No ano anterior, o jornal comemorara a abolição da escravatura, pela qual vinha lutando.

Com Julio Mesquita na direção efetiva da Redação - o patriarca da família proprietária da empresa assumiu o cargo de diretor-gerente em 1888 -, vieram grandes inovações. O jornal, que passou a se chamar O Estado de S. Paulo em 1890, após a proclamação da República, contratou os serviços da agência Havas, atual France Presse, para dar mais agilidade ao noticiário internacional e publicou pela primeira vez um clichê na primeira página, o retrato de um caixeiro morto num incêndio da Loja da China, em São Paulo.

Na Guerra de Canudos, Julio Mesquita enviou um repórter, Euclides da Cunha, para cobrir as lutas no sertão da Bahia. "Um jagunço degolado não verte uma xícara de sangue" e "um fanático morto não pesa mais que uma criança", relatou o jornalista que, mais tarde, aprofundaria suas observações em Os Sertões, livro no qual descreveu a terra, o homem e a luta de Canudos, onde os seguidores de Antônio Conselheiro enfrentaram batalhões do Exército.

Em 1915, o Estado lançou uma edição vespertina, conhecida como Estadinho, que circulou até 1919. Seu diretor era Julio de Mesquita Filho, que iniciava a carreira de jornalista, enquanto seu irmão, Francisco Mesquita, se dedicava à administração. Com a morte do pai, Julio Mesquita, em 15 de março de 1927, os dois assumiram a direção da empresa. Em 1932, lutaram contra Getúlio Vargas e, com a derrota da Revolução Constitucionalista, foram exilados em Portugal.

Ao voltar ao País, menos de dois anos depois, Julio de Mesquita Filho liderou a criação da Universidade de São Paulo, a pedido do cunhado Armando de Salles Oliveira, que havia sido nomeado interventor e em seguida eleito governador do Estado. Foi um período de trégua que durou pouco. O jornalista foi mais uma vez exilado, em novembro de 1938, por causa de sua resistência ao Estado Novo, que oficializou a ditadura em 1937.

Sob censura prévia desde 1937, o Estado foi ocupado por soldados da Força Pública (Polícia Militar) em 25 de março de 1940 e ficou nas mãos do governo até dezembro de 1945, após a queda de Getúlio Vargas. Esses cinco anos de intervenção não entram na história do jornal. É como se não tivessem existido, porque, ao retomar a direção, os Mesquita ignoraram o registro da primeira página e repetiram o número 21.650 que marcara a primeira edição feita sob ocupação da ditadura.

A empresa foi devolvida - recomprada pelos proprietários - em boas condições financeiras, o que lhe permitiu construir uma sede moderna na Rua Major Quedinho, no centro da cidade. Em 4 de janeiro de 1966, começou a circular nesse endereço o Jornal da Tarde, mais uma inovação. De início vespertino, o JT revolucionou a imprensa por sua ousadia gráfica, irreverência de estilo e qualidade de suas reportagens.

Durante o regime militar de 1964, Julio de Mesquita Neto no Estado e seu irmão Ruy Mesquita no Jornal da Tarde não se curvaram à imposição da censura. Resistiram ao Ato Institucional n.º 5, recusando-se a substituir textos e ilustrações proibidos. No espaço de material cortado, publicaram poemas (Estado), principalmente versos de Os Lusíadas, de Luís de Camões, e receitas de bolos e doces (JT). A censura só acabou em janeiro de 1975, quando o Estado comemorava seu centenário.

Foi um período duro, com ameaças e prisões de jornalistas, mas o jornal manteve-se fiel à tradição. Ruy Mesquita, atualmente diretor de Opinião do Grupo Estado, lembrou a combatividade do jornal, ao agradecer o Prêmio Abap/Ícones de Comunicação, na categoria Liberdade, que lhe foi concedido em abril do ano passado.

"Nestes 135 anos, tendo participado ativamente de todos os movimentos políticos que o País viveu, O Estado de S. Paulo tem sido identificado por todos os governos por que o País passou, aí incluídos especialmente os que ajudou a construir, como seu mais incômodo opositor", afirmou, em discurso lido por seu filho Fernão Lara Mesquita, membro do Conselho de Administração do Grupo Estado, que o representou na solenidade de entrega da honraria.

Coerência e firmeza na linha editorial valeram o respeito dos leitores ao longo da história do jornal.

Pela sétima vez em 11 anos, o Estado conseguiu, em 2010, a melhor avaliação para a categoria jornal no estudo Veículos mais Admirados, do Grupo Troiano de Branding. "O Estado teve iniciativas de impacto neste ano que contribuíram para consolidar sua liderança no mercado", disse Troiano. Ele se referia às novidades do mês de março, quando o jornal e seu site foram completamente reformulados, com novos cadernos e seções.

A repórter Marili Ribeiro resume as inovações de 2010 em reportagem sobre a entrega do Prêmio Caboré, que premiou o Estado, entre 13 finalistas, como veículo de comunicação do ano em mídia impressa. "Foi o ano do redesenho do Estado, com novos cadernos e maior integração com a área digital. A mudança gráfica e editorial se estendeu ao portal estadão.com.br, à seção de classificados (incluindo a criação do caderno Ultra, voltado exclusivamente ao mercado de luxo), ao Jornal da Tarde e ao Jornal do Carro. Alguns cadernos ganharam sites próprios, como o Economia & Negócios, Política e Paladar."

O jornal lançou o Sabático, caderno literário dedicado à cultura aos sábados, e reformulou os cadernos TV, Estadinho e Feminino. No Caderno 2, a novidade foi a ênfase dada à música no fim de semana, quando passou a circular o C2 + Música no sábado e C2 Domingo, no domingo.

A circulação total cresceu perto de 10% de janeiro a setembro, enquanto o mercado registrava alta de 2%. Também a publicidade disparou, com aumento consistente, de 15%, enquanto o mercado oscilava entre 7% e 8%. Inovação e novidades foram palavras-chave em campanhas de publicidade, tanto no conteúdo editorial (fotos e imagens) como em anúncios em tecnologia 3D. "O ano foi marcado especialmente pela reapresentação editorial e gráfica do jornal e de seu portal, pois os veículos conseguiram avançar muito na forma de apresentar as reportagens, muito mais organizada e agradável, e adicionando mais análise e conteúdo à notícia", avalia Ricardo Gandour, diretor de Conteúdo do Grupo Estado.

A cobertura do Estado ganhou importantes prêmios nacionais em 2010, como o Prêmio Imprensa Embratel, Prêmio Allianz Seguros de Jornalismo e o Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo. O estadão.com.br foi apontado pela Fundação Nuevo Periodismo Iberoamercano como uma das melhores práticas em redes sociais da América Latina. Também a Rádio Eldorado e a Agência Estado, empresas do Grupo Estado, foram premiados.

Prêmios e inovações à parte, o Estado atravessou 2010 ainda sob censura judicial. Desde 31 de julho de 2009, portanto há 522 dias, o jornal está proibido de publicar informações sobre a Operação Boi Barrica, da Polícia Federal, que investigou atividades do empresário Fernando Sarney, filho do senador José Sarney, no Maranhão. O empresário entrou com pedido de desistência da ação movida contra o jornal, mas o advogado Manuel Alceu Affonso Ferreira apresentou no Tribunal de Justiça do Distrito Federal manifestação na qual sustenta que o Estado prefere o prosseguimento da ação para julgamento do mérito.

A celebração dos 136 anos do Estado coincide com o aniversário de fundação da Rádio Eldorado (1958), do Jornal da Tarde (1966) e da Agência Estado (1970). São também empresas do Grupo Estado a Oesp Mídia (1988), a Broadcast AE (1991) e portal estadão.com.br (2000).

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