União Européia ´não teme guinada de Lula à esquerda´

A União Européia não teme a possibilidade de o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva adotar uma postura mais à esquerda que a do atual governo em um possível segundo mandato, segundo especialistas europeus ouvidos pela BBC Brasil. ?O diálogo de extrema esquerda é uma arma eleitoral?, disse o deputado José Ignacio Salafranca, vice-presidente da Delegação para as Relações com o Mercosul do Parlamento Europeu. ?A despeito das dúvidas que pesavam durante as eleições brasileiras anteriores, o governo do Brasil tem se comportado com bastante coerência econômica e dentro dos padrões politicamente admitidos. Por isso, desta vez não há temores?, afirmou.Essa opinião é compartilhada por um alto executivo da Comissão Européia (CE, braço Executivo da UE), que considera que Lula ?já provou sua habilidade para conciliar políticas sociais importantes com um certo conservadorismo econômico, esperado pelos investidores?.?O medo que havia entre os analistas e investidores estrangeiros antes da posse de Lula provou-se infundado. Principalmente porque, em aspectos gerais, o governo atual adotou uma continuidade do governo de Fernando Henrique Cardoso?, avalia Sebastian Santander, do Grupo de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Bruxelas.AgriculturaPara o executivo da CE, o único ?ponto de atrito? entre a UE e o governo de Lula é a questão agrícola. ?Esse é um ponto sobre o qual discordamos, porque cada lado está defendendo seus interesses. Mas, colocando-se no lugar do Brasil, acho que está correto que o governo seja firme nas exigências em relação à agricultura. É onde o país pode ganhar e tem que tirar o máximo proveito disso?, afirmou.Os especialistas concordam que há poucas esperanças de que o Brasil aceite novas concessões nessa área, mesmo se mudar de governo. Segundo Salafranca, ?isso dependerá mais da capacidade do negociador que do presidente?. ?O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, tem sido um negociador bastante duro e acredita-se que Alckmin não contaria com alguém desse calibre. Mas, independentemente disso, acho que a posição brasileira sobre agricultura é intocável?, afirmou o executivo da CE.Santander afirma que ?nenhum outro governo brasileiro buscou com tanta força conseguir mais benefícios para o setor nas negociações internacionais?. ?O FHC, por exemplo, também defendia a agricultura, mas não com tanta determinação?, disse.Liderança Alguns dos especialistas consultados acreditam que uma saída de Lula do governo resultaria na perda de liderança do Brasil dentro da América Latina e de um Mercosul agora também integrado pela Venezuela.?O Mercosul é composto por governos de esquerda, com exceção do Paraguai. Esse é o ponto comum. Se o Brasil tiver um presidente mais de direita, esse presidente terá dificuldades para lidar com o bloco, especialmente agora que Chávez vem ganhando força e se tornando cada vez mais difícil de conter?, avaliou o executivo da CE.Salafranca discorda: ?É verdade que Lula é um personagem carismático, mas na política o carisma muitas vezes não é imprescindível. O que conta é a determinação e a firmeza na defesa de seus interesses?, disse.

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