Diego Vara/ Reuters
Diego Vara/ Reuters

Unidade do Carrefour onde João Alberto foi morto reabre com movimento baixo e marcas de protesto

Grade do supermercado onde o homem negro de 40 anos foi assassinado tinha pichações, cartazes e flores em homenagem à vítima

Eduardo Amaral, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2020 | 20h46

PORTO ALEGRE - A loja do Carrefour onde João Alberto Freitas, de 40 anos, foi morto por seguranças, reabriu nesta segunda-feira, 23, após três dias fechada. No local, ainda era possível ver rastros da manifestação feita na sexta, em reação ao crime, em que houve invasão e depredação do estabelecimento. Lojistas e frequentadores do supermercado relatam que já flagraram excessos dos vigilantes. Pichações, cartazes e flores em homenagem a Beto, como era conhecida a vítima, eram visíveis nas grades do Carrefour. 

Na parte interna do supermercado, o clima era de tensão; funcionários com semblante preocupado trocavam poucas palavras e o movimento era bastante abaixo do normal. Nas televisões internas, uma propaganda oferecia o cartão da loja e, entre os personagens de destaque, aparece um homem negro.

Ênio Dagoberto de Lima, de 67, é vendedor ambulante e há quase 10 anos monta sua barraca com chapéus e camisetas na parte externa da loja. Segundo ele, o comportamento agressivo dos dois seguranças que espancaram Beto até a morte já era perceptível. “Sempre tinha umas mulheres que vendiam macela (tipo de planta), e comprava quem quisesse. Eu vi vezes em que esses dois seguranças colocaram elas para rua com as crianças e tudo”, diz. 

Na avaliação do vendedor, a culpa pelo que aconteceu é exclusivamente dos seguranças. “O Carrefour não tem culpa, o problema foram os dois que são uns guris sem preparo. Não se trata as pessoas daquele jeito.”

Fernando Souza é dono de uma lavanderia no primeiro andar do prédio, onde o Carrefour aluga espaço para pequenos comerciantes. Ele, por sua vez, acredita que a falta de preparo é uma constante dos funcionários da rede varejista. “O Carrefour colheu o que plantou, pagam mal e treinam mal seu pessoal”, afirma.

Entre os clientes reinava  certo desconforto. A maioria dos que foram abordados pelo Estadão preferiam não falar oficialmente e comentavam o caso de forma lacônica. “Fiquei revoltada, porque não é a primeira vez que acontece algo do tipo no Carrefour”, disse Fátima Aparecida dos Santos, de 58 anos, uma das poucas que aceitou dar entrevista.  Ela chegou a entrar no mercado ontem, mas acabou não comprando nada.  Ao falar sobre o sentimento ao ver a ação dos seguranças, ela disse:  “a gente quer segurança, não quer ser espancado.” 

Carrefour afirma dar assistência aos lojistas

Em nota, o Carrefour informa que está prestando toda assistência aos lojistas da unidade Passo D’Areia. Nos casos das lojas com avarias, a empresa já está em contato com os responsáveis para avaliar as medidas necessárias. "Temos uma equipe de manutenção fazendo uma nova vistoria no local para que todos os lojistas recebam o devido suporte. Desta maneira, a empresa está empenhada em buscar rapidamente uma solução."

Os dois seguranças envolvidos no espancamento estão detidos e foram afastados pelo Carrefour. Sobre a outra funcionária que aparece no vídeo, o Carrefour apenas afirma que ela foi afastada. 

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