UPPs viram marca da campanha no Rio

Criadas em 2008, unidades da PM em favelas são usadas por Sérgio Cabral, que tenta a reeleição, e alimentam os sonhos de líderes comunitários

Wilson Tosta , Felipe Werneck / RIO, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2010 | 00h00

Recém-incorporadas ao discurso de campanha da presidenciável Dilma Rousseff (PT), as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) da Polícia Militar do Rio viraram outdoors políticos do governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) e sonho de líderes comunitários de áreas que sofrem com alta criminalidade no Estado. À semelhança dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), marca do governador Leonel Brizola, as UPPs se transformaram em símbolo da administração Cabral, embora não cubram a maioria das favelas e os principais índices de criminalidade continuem altos, ainda que, em alguns casos, em queda. A adoção do programa pela petista é peculiar: com menos de dois anos de ação, não há avaliação de prazo mais longo sobre a eficácia dessas unidades.

Anteontem, a campanha de Cabral distribuiu release com entrevista em que o governador anunciava para o dia seguinte o início da ocupação do Morro do Turano, na Tijuca, para instalação da 12.ª UPP.

Ontem o morro foi ocupado pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope), a tropa de elite da PM. Ao todo, 35 comunidades já são vigiadas por UPPs - o governo avalia que 180 mil pessoas moram em bairros com esse modelo de policiamento. O Rio, porém, tem mais de mil favelas. Antes das eleições, o Estado usou fartamente imagens das UPPs em propaganda de TV, mostrando crianças brincando em áreas antes conflagradas.

"Todo mundo quer UPP", disse o líder do governo na Assembleia, Paulo Melo (PMDB). "Tendo UPP, com todos os erros que possam acontecer, o morador pode entrar e sair na hora que quiser, não tem perigo de sua filha ser estuprada por um traficante." Ele negou, porém, uso político do programa. "Se hoje o governo fosse atender a todos os pedidos de UPP que recebe, teria de mandar ocupar todas as comunidades", disse. Melo relatou ser comum receber de líderes comunitários reivindicações do gênero. "Digo sempre que não tem pedido, é um programa de governo, que às vezes nem o governador sabe onde vai ser."

No debate da Band, Dilma elogiou as unidades. Ela já manifestou a intenção de levá-las a outros Estados, se for eleita.

Roteiro. As UPPs seguem basicamente o mesmo roteiro. Inicialmente, anuncia-se a ocupação da comunidade via meios de comunicação, para espantar marginais e evitar confrontos que ponham em risco a população.

Depois, integrantes do Bope ocupam a área por algumas semanas, o que inviabiliza o tráfico aberto e encerra o domínio territorial das quadrilhas. A etapa seguinte é a instalação da UPP, chefiada por um capitão e com centenas de PMs recém-formados, para evitar vícios dos antigos policiais, segundo o governo. A inauguração da sede é festiva, com a presença do governador.

Apesar da intensa propaganda das UPPs como revolucionárias, a socióloga Ludmila Ribeiro, pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas, lembra que a experiência não é nova. "Tivemos o Grupamento Prático-Escolar no início da década de 1990, no governo Brizola. Consistia na mesma ideia, com uma formação específica de policiais para atuação em áreas conflagradas. Nos anos 2000, os Grupamentos de Policiamento em Áreas Especiais chegaram a cinco favelas. Eram vistos como bem sucedidos. É preciso entender por que não deram certo e saber se as UPPs vão conseguir."

Ela avalia como positiva a experiência da UPP no Dona Marta, a mais antiga, de 2008. Mas lembra que em algumas favelas há denúncias de abuso policial. Sobre a ideia de espalhar essas unidades pelo País, prometida por Dilma, ela ressalva: "A UPP é colocada como uma estratégia de policiamento para áreas conflagradas. Será que todo o País tem áreas como essas? Tudo vai depender de como se define UPP. Se for uma estratégia de policiamento mais próximo da comunidade, aí será extremamente positivo."

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