Urbanistas debatem soluções ao lado do crack

Na Sala SP, estrangeiros relatam boas experiências em suas cidades

Bruno Tavares e Evelson de Freitas, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

Do lado de dentro da Sala São Paulo, alguns dos mais renomados arquitetos do planeta discutiam propostas para tornar as metrópoles mais aprazíveis. Lá fora, numa das regiões mais degradadas da capital, mais de uma centena de homens e mulheres deitados na sarjeta consumiam crack à luz do dia. As cenas antagônicas ocorreram simultaneamente, na tarde de ontem, durante o segundo e último dia do Urban Age - conferência internacional sobre urbanismo promovida pela London School of Economics e pelo Deutsche Bank. Tão irônico quanto ver aqueles dois mundos distintos, separados apenas por um muro, era ouvir de palestrantes estrangeiros como seus países conseguiram, em poucos anos, reverter situações idênticas.Exemplos não faltaram. A diretora do Departamento de Planejamento de Nova York, Amanda Burden, contou como o poder público conseguiu revitalizar duas áreas da cidade - uma nas imediações de Wall Street, o centro financeiro da cidade, e outra à oeste, num antigo reduto de frigoríficos. "Pouco antes do 11 de Setembro, percebemos que havia uma fuga de moradores de Wall Street, e isso se acentuou ainda mais após os ataques", disse Amanda. "Com investimentos pontuais em melhoria da qualidade de vida e arquitetura, conseguimos atrair 45 mil novos habitantes para o bairro nos últimos anos." O arquiteto Brandon Haw, sócio do escritório Foster + Partners, de Londres, também defendeu intervenções para tornar as grandes cidades menos inóspitas. "Só que isso demanda planejamento, o que nem sempre vemos nas metrópoles", assinalou.Anfitriã do evento, São Paulo também tem seu plano de "requalificação urbana". Trata-se do Projeto Nova Luz, cujo objetivo é revitalizar o centro velho por meio de desapropriações e incentivos fiscais para a instalação de empresas - sobretudo do ramo de tecnologia e computação. Mas, em vez de pôr fim à venda e ao consumo de crack na região, houve apenas uma migração de viciados para outros pontos. Assim que chegou à Sala São Paulo, a reportagem do Estado flagrou usuários trocando socos e pontapés nas imediações da Rua Helvética, a poucos metros de onde ocorriam as palestras do Urban Age. "Isso aqui não tem jeito", dizia uma policial militar. "A gente faz operação, leva para a delegacia, mas, como eles não têm passagem, são liberados horas depois." A soldado contou que, na semana passada, um sargento dos bombeiros esteve no posto de policiamento com uma foto do filho nas mãos. "Ele contou que o rapaz é usuário de crack e estava sumido há alguns dias. Queria saber se tínhamos visto o moleque circulando. Uma tristeza."

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