Uso privativo

Qualquer coisa que se diga agora sobre a composição do ministério do governo Dilma Rousseff é especulação. Nesta altura ninguém é capaz de dizer com segurança e sem medo de errar quem vai para onde, quem sai ou quem fica. É uma constatação óbvia.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2010 | 00h00

Circulam hipóteses, não raro difundidas por interessados de alguma maneira: seja em emplacar ou em queimar nomes. O atual presidente diz que não vetará nem indicará ninguém e a presidente eleita nada disse de concreto a respeito.

Apenas nomeou um interlocutor (José Eduardo Dutra, presidente do PT) junto aos partidos que compuseram a aliança eleitoral e integrarão a coalizão de governo e foi descansar.

Do PMDB ao PT, passando por PSB, PDT, PP e companhia, todos decidiram por si abrir a temporada de leilões e gritam em praça pública por seu quinhão.

Todos se acham no direito de ocupar espaços e cada qual apresenta seus motivos. O PT defende seus direitos de partido da presidente; o PMDB os seus de legenda do vice-presidente; o PSB argumenta que fez bonito na eleição e assim por diante.

Governadores também são citados como interessados em indicar titulares de pastas, sendo as mais cotadas aquelas que têm mais orçamento e tocam obras. Notadamente as que guardem relação com a Copa de 2014 ou com a Olimpíada de 2016.

Os jornais todos os dias trazem relatos que mais se assemelham a uma feira livre onde cada um vende aos berros o seu produto.

Há também os que alegam precisar dos cargos para acomodar um correligionário a fim de abrir vaga no Parlamento e há partidos aceitando um escambo básico: entregam a pasta que ocupam em troca de outra mais substancial.

Todo mundo apresenta a conta com uma desenvoltura de boquiabrir.

A ninguém, porém, ocorre aludir ao interesse do público, apresentar uma proposta de política para o setor pretendido junto com uma lista de pessoas reconhecidamente competentes nas áreas específicas.

Não há sequer uma referência, tênue que seja, ao bem da coletividade necessitada de ver o Brasil sair do 73.º lugar em termos de Índice de Desenvolvimento Humano Mundial, se quiser se tornar um país realmente preparado para assumir o propagado papel de nação onde o futuro finalmente chegou.

Enquanto tratar sua administração como um condomínio de uso privativo de quem quer que seja, não chega lá.

Cenografia. Ao sugerir Aécio Neves para a presidência do Senado, o governador do Ceará, Cid Gomes, azeita as relações entre PSDB e PSB, mas faz um gesto inócuo.

Na prática implicaria arquivar a regra da preferência à maior bancada e a convencer o PMDB e o PT a desistirem do posto.

Da última vez que se rompeu a norma na Câmara foi eleito Severino Cavalcanti. Da penúltima, em 2001, Aécio Neves elegeu-se presidente da Câmara, mas rompeu-se a aliança do governo Fernando Henrique com o PFL, que lançou candidatura própria (Roseana Sarney) à Presidência da República.

Chega para lá. Correligionários de José Serra o incentivam a ser candidato a presidente outra vez. Enquanto isso, Aécio Neves ocupa espaço delimitando a área de atuação do paulista.

Aécio propõe que Serra componha, junto com Fernando Henrique e Tasso Jereissati, um conselho de notáveis para cuidar da "refundação" do PSDB.

Estelionato. Se a CMPF é tão necessária e indispensável à melhoria do serviço público de saúde, por que os candidatos a governador e a presidente não fizeram campanha pregando a volta do imposto?

Casagrande. O senador e governador eleito do Espírito Santo, Renato Casagrande, esclarece: em 2007 votou a favor da CPMF. Ficou contra depois, quando o governo tentou retomar o tema.

Agora só apoia criação de imposto no âmbito de uma reforma tributária e mediante a desoneração de outro setor.

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