Usuários de crack lotam Rua dos Gusmões e prejudicam comércio

Via recebe ?procissão? de drogados, o que faz com que lojas fechem mais cedo

Rodrigo Brancatelli, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

21 de maio de 2008 | 00h00

A ocupação começa por volta das 17 horas, quando os comerciantes correm para baixar as portas e deixar o local. No trecho de pouco mais de 70 metros da Rua dos Gusmões, entre a Alameda Barão de Limeira e a Rua Conselheiro Nébias, no centro histórico de São Paulo, a cena mais parece um take de A Noite dos Mortos Vivos. Dezenas e dezenas de pessoas, entre mulheres, adolescentes e mendigos antigos da região, se reúnem naquele quarteirão para fumar crack e cheirar cola por toda a madrugada. Ficam vagando, de um lado para a outro, sem serem incomodados por ninguém. Os traficantes protegem bem a rua do crack - um "segurança" fica posicionado no começo da rua e outro permanece no lado oposto, de prontidão para gritar "lôra" quando alguma viatura da polícia se aproxima. Enquanto a "lôra" não é pronunciada, a procissão de drogados continua, até a manhã seguinte."É normal fechar a loja mais cedo para evitar problemas, até porque os clientes têm medo", diz Michelangelo Firmino, vendedor de uma loja de motos na Rua dos Gusmões. "O movimento caiu 20% desde que começou a ter consumo de crack por aqui. Dá até pra ver o pessoal durante o dia fumando crack, perto da hora do almoço. A gente que trabalha aqui até tem medo de abrir a loja às 8 horas, porque sempre tem umas 60 pessoas consumindo drogas bem na frente da porta da loja."A migração dos consumidores para a Rua dos Gusmões, que fica a seis blocos de distância do 77º Distrito Policial, começou há pouco mais de dois meses, logo depois de o prefeito Gilberto Kassab afirmar que a Cracolândia não existia mais. Antes, os traficantes atuavam na área da Rua Helvétia, mas as rondas de moto da Polícia Militar fizeram com que eles mudassem de freguesia. Moradores e entidades do bairro já procuraram a Prefeitura para cobrar mais segurança na área, mas as cenas de consumo se repetem todos os dias, toda a noite. "De fato é o dia inteiro, não tem mais horário. Enquanto não tivermos um trabalho de encaminhamento e uma revitalização da área, veremos isso", diz o coronel Álvaro Camilo, responsável pelo comando de policiamento do centro. Só neste ano, a Polícia Militar fez 5.910 abordagens naquele local, com 24 pessoas presas - ontem à tarde, uma base comunitária móvel com oito policiais foi instalada na rua. O secretário de Subprefeituras, Andrea Matarazzo, não vê o consumo na Rua dos Gusmões como um revés no projeto da Nova Luz, que pretende acabar com a Cracolândia. "O lugar está bem melhor, agora tem lavagem da rua, coleta de lixo, fiscalização...", diz. "Queremos agora tratar essas pessoas para que o problema das drogas diminua."

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