André Fran
André Fran
Imagem André Fran
Colunista
André Fran
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Vai ter golpe nos EUA?

O desastre para a democracia americana se disseminaria como um abalo sísmico

André Fran, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2020 | 05h00

Em 2016 eu estava aos pés do Monte Rushmore, em Dakota do Sul (EUA), quando tive uma epifania. Para quem não está familiarizado, o cenário é aquele imenso morro com as cabeças de lendários presidentes americanos esculpidas em pedra que sempre aparece em filmes patrióticos e desenhos do Pica-pau. Naquele dia, uma professora esbaforida tentava controlar uma turma de crianças enquanto transmitia conceitos sobre a história do país. “Sabem por que somos privilegiados? Temos liberdade!”, dizia, enquanto a garotada queria mais era correr, tagarelar e tirar selfies com o monumento ao fundo. Típico. Foi só quando a educadora fez a pergunta final que realmente engajou a molecada: “E quem vocês acham que será o próximo presidente da América?”. “TRUMP!” gritavam as crianças a plenos pulmões em catarse coletiva que eu só tinha visto em jogos de futebol. 

Era o fim de minha jornada pela terra do Tio Sam, onde cobri a corrida presidencial de 2016. Dakota do Sul é tradicional reduto republicano (Donald Trump ganhou lá nas duas últimas eleições), mas eu já tinha testemunhado essa paixão eleitoral entre desempregados no “Cinturão da Ferrugem”, armamentistas no sul dos EUA, jovens descrentes com os políticos. Contrariando pesquisas, a impressão ao fim do périplo era: em eleição sem voto obrigatório, só vai votar quem está mobilizado. Era difícil ver um fã ardoroso de Hillary Clinton por onde andei. Candidato surpresa e fora do tradicional, Trump era um azarão imprevisível. Sua rejeição ainda não atingira recorde. O que eu previa se concretizou. Apesar da derrota no voto popular, ele chegou ao poder pelo intrincado sistema do colégio eleitoral. 

Fast forward para 2020. Mandato marcado pela pandemia, protestos, movimentos supremacistas … não foi a garantia de vitória tranquila ao democrata, como as pesquisas (de novo) apontavam. Joe Biden foi eleito com margem apertada no colégio eleitoral. Mas o voto popular acende alerta. Se muitos celebravam a votação recorde de Biden, parece passar despercebido o fato de Trump ter ficado só poucos milhões de votos atrás. Em que pese a contagem final de votos, o que eu havia constatado fica claro: o trumpismo sai vitorioso.

O “cesto de deploráveis”, como definiu a candidata Hillary com desdém. A “minoria ruidosa”, como analistas temerosos do extremismo racista tentaram desqualificar. A “bolha do Facebook”, segundo os que preferem ignorar o poder das fake news na era das redes sociais. São muitos! Mais precisamente: metade dos eleitores da nação mais poderosa do mundo, 71 milhões (no momento em que redijo essa coluna). Quem percebeu isso foi, claro, Trump. De imediato tentou acionar a força de sua imensa base e disparou a narrativa da “fraude eleitoral”, mesmo sem provas. 

Líderes estrangeiros, mesmo os alinhados com Trump, já davam a eleição como favas (e votos) contadas e parabenizavam Biden. Na lista dos que se recusaram a reconhecer o resultado, extremistas como: Mohammed Bin Salman, da Arábia Saudita, Kim Jong-un, da Coreia do Norte e Jair Bolsonaro. Políticos republicanos mais moderados cumprimentaram o eleito. A Fox News, TV conservadora e base de apoio de Trump na mídia, declarou a vitória de Biden em rede nacional e cortou a porta-voz da Casa Branca quando esta ameaçou citar a suposta “fraude eleitoral”. Todo mundo abandonava a barca Trump. Até… 

O Partido Republicano, que nos últimos quatro anos se moldou no “Partido de Trump”, parece que seguirá a seu lado mesmo na ousada tentativa de melar a eleição. Alguns figurões do GOP já vieram a público denunciar suposta “roubalheira” no processo eleitoral. Do outro lado, democratas e analistas que consideravam o discurso uma piada já estão assustados e falam em “golpe”, algo até então inimaginável por aquelas bandas. 

Ainda que a organização bipartidária Brennan Center afirme que o índice de erro nas eleições dos EUA seja de 0,0009%, recente pesquisa do Morning Consult mostra que a confiança dos republicanos no processo caiu de 70% para 34%. Trump mina a confiança dos americanos na democracia - algo que nem “os russos” conseguiram sucesso. 

Equipe do presidente se recusou a passar informações do serviço de inteligência para o time de transição de Biden. Trump trocou o secretário de Defesa por um de seus mais fiéis apoiadores. Substituiu uma das principais autoridades do Pentágono por um general que espalha teorias de conspiração. A quantidade de desinformação e fake news disseminadas por robôs nas redes sociais já atinge níveis estratosféricos (com ajuda de bots brasileiros). Membros de milícias armadas de extrema-direita, empoderadas nesta gestão, foram presos por ameaçar sequestrar governadores democratas e fazerem pressão em zonas eleitorais. Como reagirão a um desfecho desfavorável? 

Os próximos dois meses prometem ser intensos. Juristas analisam possíveis brechas na Constituição que poderiam permitir a permanência de Trump. Ainda que muitos acreditem que isso seja improvável, a narrativa trumpista seguirá viva entre seus milhões de apoiadores.

E o que nós brasileiros temos a ver? Biden citou o Brasil em um discurso. Não foi de modo positivo, mas ameaçando sanções econômicas se nosso governo não impedir a destruição da Amazônia. Um pouco de preocupação ambiental e outro tanto de disputa pelo mercado mundial do agronegócio, onde somos rivais diretos dos EUA. Estaremos melhores numa reviravolta sem precedentes que gere uma crise institucional garantindo a permanência de Trump ? Dificilmente. O desastre para a democracia americana se disseminaria como um abalo sísmico mundo afora. E, por mais isolado que o Brasil esteja, o impacto aqui pode causar danos irreversíveis. 

*É DIRETOR, APRESENTADOR DE TV, JORNALISTA E TEM MAIS DE 60 PAÍSES CARIMBADOS NO PASSAPORTE

Tudo o que sabemos sobre:
Donald TrumpJoe Biden

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.