Douglas Magno/AFP
Douglas Magno/AFP

Vale desconhece pedido de prefeitura de parar obra de barragem em Ouro Preto

Prefeito diz ter solicitado paralisação depois da tragédia de Brumadinho, enquanto a mineradora alega não ter sido 'notificada oficialmente'

André Borges, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2019 | 17h34

BRASÍLIA - A construção de uma barragem  de rejeito da Vale tem desagradado a Prefeitura de Ouro Preto, que afirma ter pedido a interrupção da obra no município mineiro. O Estado apurou que a mineradora tem trabalhado diariamente na ampliação de uma estrutura conhecida como Barragem do Doutor, inclusive nas datas seguintes à tragédia no Córrego do Feijão, que rompeu em 25 de janeiro, em Brumadinho, resultando em uma das maiores catástrofes do setor mineral em todo o mundo, com ao menos 166 mortos e 155 desaparecidos.

O prefeito de Ouro Preto, Julio Pimenta, afirmou à reportagem que pediu a paralisação de qualquer obra de ampliação de barragem na cidade. “A Prefeitura tem cobrado da Vale que nenhuma barragem mais seja alteada no nosso município”, declarou. Segundo ele, a solicitação foi feita “uma semana depois da tragédia em Brumadinho”.

A Vale informou, por meio de nota, que “não foi notificada oficialmente sobre qualquer pedido de paralisação” e que a Barragem do Doutor, diferentemente de Brumadinho, “não é construída a montante”, ou seja, utiliza outro tipo de sustentação. Por isso, segue em operação regularmente. A estrutura de alteamento da barragem prossegue, conforme aumenta o acúmulo de rejeito na estrutura.

Moradores da região confirmaram ao Estado que os trabalhos estão em andamento na barragem, usada para acumular o rejeito de ferro da mina de Timbopeba, na vila de Antônio Pereira. O local fica a apenas cinco quilômetros de distância da barragem do Fundão, que rompeu no desastre de Mariana, há pouco mais de três anos.

A Barragem do Doutor utiliza o método de construção de alteamento a partir da “linha de centro”, uma alternativa considerada um pouco mais segura que o modelo das “barragens a montante”, usado no Córrego do Feijão, no qual a barragem é construída com o uso do próprio rejeito depositado, que passa por “alteamentos sucessivos” sobre o material que é depositado. Essas elevações de nível usam a parte mais grossa do rejeito para formar um “maciço”, que funciona como a parede da barragem.

Em 29 de janeiro, quatro dias após a tragédia, o presidente da Vale, Fábio Schvarstman, anunciou que a mineradora irá desativar todas as barragens a montante que possui em Minas Gerais. “Nove das 19 já foram descomissionadas. Sobraram, no entanto, dez, que estavam em projeto de descomissionamento também”, afirmou.

“A decisão da companhia foi que, depois que esse desastre aconteceu, não podemos mais conviver com esse tipo de barragem. Consequentemente, tomamos a decisão, que foi referendada pelo Conselho de Administração da companhia na data de hoje, de eliminar, acabar com todas as barragens a montante, descomissionando todas elas, com efeito imediato", acrescentou.

Segundo a Vale, a decisão de desativar as unidades foi tomada em 2016, logo após o tragédia da Samarco, empresa da Vale com a BHP Billiton, em Mariana. Até o fim do ano passado, nove estruturas já teriam sido desativadas.

As barragens a montante que serão desativadas pela Vale, segundo a mineradora, levarão à paralisação temporária de plantas localizadas em Ouro Preto, Congonhas, Itabirito, Nova Lima, Belo Vale e Brumadinho, todas em Minas Gerais.

As unidades de operação são as de Abóboras, Vargem Grande, Capitão do Mato e Tamanduá, no complexo Vargem Grande; e as operações de Jangada, Fábrica, Segredo, João Pereira e Alto Bandeira, no complexo Paraopebas, incluindo ainda a paralisação das plantas de pelotização de Fábrica e Vargem Grande. “As operações nas unidades paralisadas serão retomadas à medida que forem concluídos os descomissionamentos”, declarou a empresa.

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