Vale-despejo é usado na compra de barraco em zona de risco

Sem opções em programas habitacionais da Prefeitura ou do Estado, moradores das áreas de risco em favelas da capital utilizam o auxílio financeiro de R$ 5 mil do Município para compra de barracos em áreas na mesma situação de perigo. A Verba de Apoio Habitacional (VAH), que deveria ser um dos instrumentos de proteção e apoio para esses moradores, virou fonte de renda para a compra ou aluguel de barracos, de preferência na mesma favela. Pessoas que moram próximo a encostas ou córregos afirmaram ao Estado que, mesmo cadastradas pelas subprefeituras, não têm condições financeiras de procurar casa fora de áreas de risco. ?Recebi o dinheiro da Prefeitura, mas não consegui arrumar barraco para comprar pelo mesmo valor. O jeito foi morar de favor com minha mulher e filho na casa da minha cunhada, que fica no meio da favela, até conseguir um lugar em outra área de risco?, disse Paulo Henrique dos Santos Silva, de 23 anos, que morava em um barraco em frente de um córrego no Jardim Peri, na zona norte da capital. No início de março, o barraco do ajudante de pedreiro desempregado, que recebe R$ 25 por dia quando faz algum bico, foi demolido. Assim como ele, outras 20 famílias foram removidas da Rua Mariana C. Rochetti, depois de assinarem um auto de interdição. ?A gente aqui sempre diz: dinheiro na mão, barraco no chão. Não tive tempo nem de retirar o berço do bebê ou o sofá da casa. A máquina da Prefeitura passou no mesmo dia?, lamentou Silva, sentado sobre o que sobrou do seu sofá. O pedreiro e a mulher, Edivânia, afirmaram que estavam cadastrados nos programas habitacionais da Prefeitura desde 2003, e agora foram novamente inscritos, após receber os R$ 5 mil. Sem esperanças de conquistar uma unidade habitacional, alguns moradores afirmaram que o jeito que encontraram para aumentar a verba de R$ 5 mil é arrumar familiares para dividir o barraco na área, dobrando o valor a ser pago pela desapropriação. ?É um cheque-despejo, que só serve para os moradores voltarem a morar em áreas de risco?, ressaltou Verônica Kroll, integrante da União Nacional por Moradia Popular e coordenadora do Fórum de Cortiços e Sem-Teto de São Paulo. ?Alguns moradores desalojados ainda acabam reforçando o movimento por moradia no centro.? A Secretaria Municipal de Habitação informou que a verba de apoio não é utilizada como ?política habitacional?, mas é um dos instrumentos de atendimento para as famílias. A secretaria explicou que o pagamento é feito sempre a pessoas que vivem em locais a serem reurbanizados ou em áreas de risco, objeto de ação judicial, desapropriações ou nas quais haverá limpeza de córregos. Em 2006, 5.348 famílias receberam a verba. Este ano, até fevereiro, o número foi de 311. Também há um cadastro único que impede que uma família receba duas vezes a verba. ?As famílias moradoras de áreas de risco podem receber ou não a verba de atendimento habitacional. Em muitos casos, elas aguardam o término da obra em outra habitação e voltam para as unidades depois de prontas. A verba é usada como proteção dessas pessoas?, informou a Assessoria de Imprensa da secretaria. A Prefeitura disse que já beneficiou 46 mil famílias em programas habitacionais e retomou 51 mutirões interrompidos desde a década de 90.

Agencia Estado,

23 Abril 2007 | 09h39

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