Valente prometeu ajuda a policial

Investigador gravou encontro com primo de Malheiros; defesa diz que detento quis conduzir a conversa

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

O advogado Celso Augusto Hentescholer Valente ofereceu ajuda ao investigador Augusto Pena, preso, e disse que havia conversado com seu primo e sócio Lauro Malheiros Neto, ex-secretário adjunto da Segurança Pública, para auxiliar o policial. A conversa foi gravada por Pena dentro do Presídio Especial da Polícia Civil (PEPC). Pena nega ao advogado que tivesse a intenção de aceitar a delação premiada para denunciar os supostos esquemas de venda de sentenças em processos administrativos (PAs) e de cargos na Polícia Civil paulista."Essa fita não é uma surpresa. Meu cliente falou sobre ele em seu depoimento. Nela não há proposta ilegal. Não há nesse áudio qualquer fato criminoso que possa ser imputado ao meu cliente", afirmou o criminalista José Luis de Oliveira Lima, que defende Valente. Ele questionou a legalidade da gravação, pois o preso não podia ter um gravador na cadeia. "Outra vez um interlocutor tenta conduzir a conversa para obter respostas do meu cliente."Valente conta na gravação um suposto diálogo que ele teria tido com Malheiros Neto sobre Pena. O adjunto deixou a secretaria em maio de 2008 sob a suspeita de ter beneficiado Pena e se diz vítima de uma armação. Valente afirma que disse ao ex-adjunto que Pena não iria delatá-lo, pois ele (Pena) "é um sujeito correto". "Ele não vai ferrar um amigo." Segundo Valente, Malheiros Neto teria dito que não podia ir falar com Pena, ao que o advogado teria respondido: "Vê se consegue dar uma ajuda. Não fica só vendo o seu lado. Como ficou para ele (Pena) toda essa história? Ele se f..., ele vai pra rua." No fim do diálogo, Valente afirma: "Se você precisar de uma ajuda, podendo te ajudar, vou te ajudar."MEDO DA DELAÇÃOValente foi flagrado por um outro investigador que gravou um DVD. Nele, o advogado venderia sentenças de PAs para policiais corruptos e cargos importantes na Polícia Civil. O primo de Malheiros Neto foi ao presídio da Polícia Civil, segundo disse Pena, com medo de que o investigador fizesse a delação premiada. A conversa durou cerca de 30 minutos e em muitos momentos a gravação é inaudível.A fita, no entanto, prossegue por mais 25 minutos. Neles, Pena pede ao carcereiro que registre no livro de visitas que o advogado Valente pediu para conversar com ele depois de visitar um cliente na prisão - o que ocorreu. Depois, Pena começa uma outra conversa. Dessa vez, a qualidade do áudio é melhor.Pena conversa, provavelmente, com outro policial preso e pergunta: "Quem era o ?papagaio? que o Fábio Pinheiro Lopes mandou no domingo?" Lopes é um dos delegados que Pena acusa de ter comprado o cargo na polícia - ele nega. O policial revela o nome do suposto emissário de Lopes e confirma a venda de cargos. "Ele pagou para esse Malheiros." O policial diz que muitos delegados estão preocupados com o que Pena sabe. Dois outros delegados são citados na conversa, um deles chamado de Bad Boy. O interlocutor de Pena diz então: "Vou te falar uma coisa, como amigo: se prepara que vai ter contra-ataque." Pena foi transferido em 27 de fevereiro do PEPC para a Penitenciária 2 de Tremembé, pois sua vida corria risco.O secretário da Segurança, Ronaldo Marzagão, afirmou que se sentiu surpreso, ao saber das denúncias que atingiam seu adjunto, e, depois, "impressionado com a gravidade das acusações". "Posso assegurar é que o governo, a secretaria e a polícia têm todo o interesse em apurar com profundidade."

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