Valor de quiosque do governo dá para comprar 12 casas no Estado

Metro quadrado da obra no Piauí é de R$ 9.582, valor equivalente ao cobrado em áreas nobres de São Paulo e Brasília

João Domingos, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

CORONEL JOSÉ DIAS (PI)

Por R$ 20 mil é possível comprar uma casa de 100 m² num lote de 300 m² na cidade de Coronel José Dias, a 550 quilômetros ao sul de Teresina. Mas um quiosque de 25 m² poderá custar aos cofres públicos R$ 239,5 mil, ou R$ 9.582 o metro quadrado, valor equivalente ao cobrado em áreas nobres de São Paulo ou Brasília.

Até o senador Wellington Dias (PT-PI), então governador do Piauí quando a obra começou, admite que a situação de Coronel José Dias "é constrangedora" e "motivo de vergonha". A cidade, próxima a duas das principais entradas do Parque Nacional da Serra da Capivara, tem 4.541 habitantes, dos quais cerca de 2 mil na área urbana e o restante em 13 comunidades rurais. A sede não comporta nove quiosques - por coincidência, o número de vereadores da cidade.

Mesmo assim, o governo do Estado decidiu fazê-los. Oito deles começaram a ser levantados ao longo da BR-020 no trecho de cerca de 1 quilômetro que corta a cidade. O outro fica na Praça São Pedro, distante 600 metros.

Para os nove quiosques, mais a urbanização da Praça São Pedro, foram destinados R$ 2,15 milhões, dos quais R$ 1,39 milhão do Ministério do Turismo. A vencedora da licitação foi a Construtora Fênix, que não deu conta de terminar os quiosques.

Estão todos abandonados, servindo de banheiro público sem que tenham nenhuma das instalações sanitárias prontas. Procurada pelo Estado, a construtora não quis se manifestar.

"Não tem gente para frequentar tanto boteco", disse o lavrador aposentado José Pereira dos Santos, de 72 anos. Ele contou que a empresa chegou, arrebanhou cerca de 50 trabalhadores locais, começou a obra e não pagou os salários. Já o secretário de Infraestrutura de Coronel José Dias, Jonas Oliveira, afirmou que os trabalhos foram suspensos logo após a eleição do ano passado, que elegeu Wilson Martins (PSB) governador e Wellington Dias senador. "Foi um caso típico de uso de uma obra para a eleição", disse ele.

O governo do Piauí informou ao Estado que vai romper o contrato e fazer nova licitação, além de mandar refazer todo o serviço, porque as obras estão fora da especificação. "Vamos cancelar o contrato", disse o secretário de Infraestrutura do Piauí, Sílvio Leite. "Já pagamos R$ 650 mil para a construtora e estamos devendo R$ 125,8 mil. Mas só repassaremos o dinheiro se a empresa substituir o material que usou na obra", disse.

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