Vandalismo e confronto deixam Favela de Paraisópolis sitiada

Um morador foi baleado e três policiais ficaram feridos; 9 foram detidos. Manifestantes tentaram fechar avenida

Vitor Hugo Brandalise, Bruno Tavares e Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

03 Fevereiro 2009 | 00h00

Um grupo de 40 pessoas entrou em confronto com a Polícia Militar por volta das 17 horas de ontem, na Avenida Giovanni Gronchi, perto da Favela de Paraisópolis, zona sul de São Paulo. Os manifestantes queimaram pneus, sacos de lixo e pedaços de madeira, formando barricadas e amarrando postes com correntes para interditar acessos à favela. Segundo a PM, nove pessoas (seis adultos e três adolescentes, apenas um com passagem anterior pela polícia, por furto) foram presas, levadas ao 89º Distrito Policial (Portal do Morumbi), e pelo menos oito carros foram depredados. A situação na favela hoje e os desdobramentos do caso O confronto, segundo a PM, começou quando os manifestantes - a maioria jovens - tentou fechar a Avenida Giovanni Gronchi e a Rua Doutor Francisco Tomás Carvalho. "Não era uma manifestação, não queriam conversa, eram baderneiros praticando atos de vandalismo", disse o capitão Eliezer Klinger Soares Fernandes, do 16º Batalhão de Polícia Metropolitano, que atendeu a ocorrência, pouco antes de ser baleado no abdome. Ele foi atendido no Hospital Albert Einstein. Passou por exames e não corria risco de morte. Mais dois PMs ficaram feridos: um soldado e um sargento. Eles foram levados para o Hospital Universitário. O fotógrafo Derval Olímpio da Silva, de 44 anos, estava na sacada de casa, quando foi atingido por uma bala perdida, segundo a polícia. Seu estado de saúde não foi informado. A polícia tem duas hipóteses para explicar a manifestação: a morte de Marcos Purcino, de 25 anos, traficante e ladrão, foragido do presídio de Franco da Rocha, morto em um tiroteio com PMs anteontem (leia mais abaixo), e a substituição do comandante do policiamento da área. "O que chegou para mim é que eles estão descontentes com a morte de um morador, dizem que era um rapaz de família", disse o presidente da Associação de Moradores de Paraisópolis, Gilson Rodrigues. Outro líder da comunidade ouvido pelo Estado contou que dois policiais do 16º Batalhão da Polícia Militar do bairro podem ser o alvo principal dos protestos. Os policiais são conhecidos pelo apelido de Zóio Roxo e Raio. Os dois se autoproclamavam "donos da favela". Há pelo menos quatro meses a comunidade tentava negociar com o comando do BPM a transferência dos dois, sem sucesso. De acordo com a liderança, havia ainda uma terceira pessoa na hora da abordagem policial de anteontem e que se encontra desaparecida desde que testemunhou o episódio. Ontem, familiares do desaparecido foram pedir ajuda a lideranças de Paraisópolis, alegando que se tratava de trabalhador e chefe de família. A manifestação começou no fim da tarde, com ataques a estabelecimentos comerciais. "A impressão é de queriam fazer parecer uma ocorrência comum, para atrair a polícia", afirmou o secretário de Segurança Pública, Ronaldo Marzagão. Os donos de lotação foram os primeiros a aderir ao protesto, que se alastrou rapidamente pela comunidade. Algumas ruas da região foram bloqueadas pela CET, sendo liberadas no fim da noite. Até as 21h30, duas linhas de ônibus e quatro de micro-ônibus não puderam trafegar. No começo da noite, pelo menos oito donos de veículos depredados estiveram no 89º DP para registrar BOs. Eram motoristas que estavam na esquina da Avenida Giovanni Gronchi com a D. Pedro Fournier e se viram no meio do tumulto. Os veículos tiveram vidros quebrados por pedradas e por pedaços de pau. Algumas portas foram amassadas. Eles tiveram de abandonar seus carros. "Me senti no meio do inferno. Eram garotos de 10 a 15 anos com pedras nas mãos, pedindo celular, a bolsa. Quebrando tudo", disse L.L., de 42 anos, dona de uma Siena prata. "Perguntaram se eu estava bem, mas disseram: ?precisávamos fazer isso porque mataram um dos nossos?." H.S., de 23 anos, professor de educação física, dono de um Peugeot 307, contou como escapou. "Peguei minha mãe pela mão e desci correndo. No caminho, me tiraram celular e a carteira. Depois, todos os carros que vinham atrás deram ré ou voltaram na contramão." No total, foram levados cinco celulares e mais de R$ 1 mil em dinheiro. POLICIAMENTO COMUNITÁRIO Pela violência demonstrada, a polícia também suspeita que a manifestação possa estar relacionada à troca do comandante da 6ª Companhia do 16º Batalhão da PM, capitão Adnaldo Soares Alexandre, encarregado pelo policiamento na favela. Substituído na semana passada, ele tinha boa aceitação na comunidade dizem fontes da Segurança Pública. "Ele prezava o policiamento comunitário e sempre desenvolveu boas ações na região, tanto que sua saída gerou muitos protestos do Conseg (Conselho Comunitário de Segurança) do Portal do Morumbi", disse um policial. Foram mandados para o local 60 viaturas da Força Tática, da Tropa de Choque e do Policiamento de área, além do helicóptero Águia.

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