Vaticano cobra de Dilma que preserve acordo bilateral

Emissário da eleita entrega carta em que propõe 'trégua'; petista acerta visita ao papa em 2012

Jamil Chade / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2010 | 00h00

O Vaticano cobra do novo governo de Dilma Rousseff um compromisso para que não reabra o acordo que rege as relações bilaterais com o Brasil e que foi alvo de muita polêmica. O assunto foi debatido ontem em reunião do secretário da Santa Sé para Relações com os Estados, Dominique Mamberti, com Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Definiu-se, no encontro, que Dilma fará uma viagem a Roma em 2012 para se reunir com o papa Bento XVI. A visita já está sendo organizada pelo Palácio do Planalto e pela Santa Sé e faz parte do projeto de uma "trégua" entre o Vaticano e Dilma depois da polêmica sobre o aborto, durante a campanha eleitoral.

O Vaticano solicitou a Carvalho que o Acordo Brasil- Santa Sé sobre o Estatuto Jurídico da Igreja Católica entre em vigor a partir do próximo mandato. O documento inicial, proposto pela Igreja em 2007, falava na obrigatoriedade do ensino de religião em escolas públicas, acesso às reservas naturais para missionários e isenção de impostos. O Itamaraty alterou o texto para uma mera declaração de boas relações com a Santa Sé.

Sancionado pelo presidente Lula no início deste ano, o texto esbarrou em um processo e está no Supremo Tribunal Federal. "Não acreditamos que isso ofereça um risco para sua entrada em vigor", garantiu Carvalho.

Dilma decidiu na última quinta-feira aproveitar a viagem de Carvalho para mandar recado: seu governo não abrirá guerra contra a Santa Sé. Em sua carta ao papa, ela pede que a Igreja "não recue" em relação ao Brasil e diz que o futuro governo conta com a Santa Sé para o seu projeto de erradicação da pobreza.

A carta, a ser entregue amanhã, pede a bênção do papa ao governo e assegura que a eleita quer diálogo. "O que nós queríamos e acho que conseguimos era limpar de uma vez por todas o mal-estar da campanha eleitoral", admitiu Gilberto Carvalho.

Aborto. Nem na carta nem durante a reunião foi tratada a questão do aborto. Mas Carvalho admitiu que a campanha de Dilma viveu "momentos de grande tensão" diante dos comentários do papa sobre o assunto, feitos dias antes do segundo turno.

Foi quando Bento XVI, em reunião com bispos do Maranhão, condenou a descriminalização do aborto e da eutanásia e recomendou aos bispos que emitissem "juízo moral" sobre essas questões, mesmo em "matérias políticas". Sem se referir à eleição, o papa pediu que eles orientassem os fiéis a usar o voto para "promoção do bem comum".

"Não sabíamos que direção esses comentários tomariam", admitiu. Carvalho acusou "forças no Brasil" de terem influenciado o papa a fazer tais declarações e garantiu que para Dilma o assunto é "parte do passado".

Do lado do Vaticano, Mamberti confirmou que o Brasil é de "importância fundamental" para a Santa Sé e que uma visita de Dilma já em 2011 ao papa seria relevante para mostrar o compromisso na relação bilateral. Carvalho, porém, explicou que dificilmente a viagem ocorreria em 2011. "O primeiro ano é sempre para amarrar o governo", explicou. "A data que se trabalha é 2012", apontou.

"Minha principal mensagem e objetivo foi tranquilizar o Vaticano em relação ao que será o governo Dilma", disse Carvalho ao Estado por telefone ao sair da reunião. Na conversa, ele informou que a eleita não tem intenção de rever o acordo com o Vaticano, mas ressaltou a necessidade de manter o caráter laico do Estado. "Não podemos esquecer que 22,5% da população brasileira é composta de evangélicos." Segundo Carvalho, "não haverá diferença qualitativa entre o governo Dilma e o governo de Lula em relação à Igreja".

Guerra dos panfletos

Na reta final da campanha, o bispo Luiz Gonzaga Bergonzini (foto) produziu material pedindo aos eleitores para votarem "em candidatos contrários à descriminalização do aborto"

Carta aos cristãos

Ao constatar a perda de votos por conta do debate religioso, Dilma divulga, no 2º turno, a "Carta aos cristãos", comprometendo-se a manter a lei do aborto, A reação, disse, colocou "fim à campanha de calúnias"

Reação do Vaticano

Dois dias antes do 2º turno, o papa Bento XVI condenou a descriminalização do aborto e recomendou aos bispos brasileiros que orientassem os eleitores "mesmo em matérias políticas"

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