Gregorio Borgia/REUTERS
Gregorio Borgia/REUTERS

Vaticano muda fala do papa sobre ‘psiquiatria’ e homossexualidade

Para associações, frases incitam homofobia e ligação com doença; Santa Sé diz que ele se referia ao psicológico

O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2018 | 03h00

Uma declaração do papa Francisco no retorno da visita à Irlanda, neste domingo, 26, motivou críticas de associações ligadas ao movimento LGBT. E obrigou o Vaticano a retificar uma fala do pontífice. A jornalistas, o pontífice afirmou que pais e mães de crianças com tendências homossexuais deveriam submeter os filhos a tratamento.

Na ocasião, em um voo para o Vaticano, o papa foi indagado sobre o que falaria a pais que percebem orientações homossexuais nos filhos. “Diria a eles, em primeiro lugar, que rezem, que não os condenem, que dialoguem, entendam, que deem espaço ao filho ou à filha”, respondeu. “Quando isso se manifesta desde a infância, há muitas coisas para fazer por meio da psiquiatria, para ver como são as coisas. Outra coisa é quando isso se manifesta depois dos 20 anos”, acresceu. “Nunca direi que o silêncio é um remédio. Ignorar a seu filho ou sua filha com tendências homossexuais é um defeito de paternidade ou de maternidade.”

Em resposta, associações francesas LGBT chamaram as palavras do pontífice de “irresponsáveis”. “Condenamos estas declarações que fazem referência a uma ideia de que a homossexualidade é uma doença. Se há uma doença esta é a homofobia arraigada na sociedade”, criticou Clémence Zamora-Cruz, porta-voz da associação Inter LGBT. A polêmica também chegou às redes sociais. No Twitter, a associação francesa SOS Homofobia também qualificou as palavra de “graves e irresponsáveis”. “Incitam o ódio contra as pessoas LGBT na nossa sociedade, já marcada por alto nível de homofobia.”

Nesta segunda-feira, 27, a assessoria do papa retirou a referência à psiquiatria na declaração dada, destacando que o sumo pontífice não quis abordar o tema como “uma doença psiquiátrica”. “A palavra ‘psiquiatria’ foi retirada do ‘verbatim’ publicado hoje pelo serviço de imprensa do Vaticano, para não alterar o pensamento do papa”, explicou à AFP uma porta-voz do Vaticano. “Quando o papa se refere à ‘psiquiatria’, é claro que ele faz isso como um exemplo que entra nas coisas diferentes que podem ser feitas”, explicou a mesma fonte. “Mas, com essa palavra, ele não tinha a intenção de dizer de que se tratava de uma doença psiquiátrica, mas que talvez fosse necessário ver como são as coisas no nível psicológico”, acrescentou.

Histórico

Francisco não tem histórico de críticas à população LGBT. Em 2013, em uma situação semelhante, em conversa com jornalistas após a viagem ao Brasil, disse que “se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-lo”. “O Catecismo da Igreja explica isso bem. Diz que eles não devem ser marginalizados”, insistiu. 

Em maio, o chileno Juan Carlos Cruz, que sofreu abuso sexual, quando criança, de um padre, afirmou que o papa disse a ele que Deus o fez gay, “o ama assim e a mim não importa”. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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