Divulgação instituição Obras Sociais Irmã Dulce
Divulgação instituição Obras Sociais Irmã Dulce

Irmã Dulce será declarada santa após Vaticano reconhecer seu segundo milagre

Papa Francisco assinou decreto que garante a canonização da beata nascida em Salvador (BA)

Heliana Frazão*, José Maria Tomazela e Ana Paula Niederauer, *Especial para o Estado

14 de maio de 2019 | 10h05
Atualizado 15 de maio de 2019 | 14h58

SALVADOR E SÃO PAULO - O cego voltou a enxergar. Entretanto, desta vez, o milagre não é atribuído a Jesus, mas à Irmã Dulce, que ainda este ano deverá ser canonizada, tornando-se a primeira santa verdadeiramente brasileira. O reconhecimento do feito do "Anjo bom da Bahia" foi anunciado pelo papa Francisco nesta terça-feira, 14. Conforme o arcebispo da Bahia e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, a data da canonização deverá ser confirmada pelo Vaticano no mês de julho.

O arcebispo disse que o processo de canonização da freira será o terceiro mais rápido da história, pois ocorrerá 27 anos após a sua morte, atrás apenas da santificação do papa João Paulo II (9 anos) e de Madre Tereza de Calcutá (19 anos). 

Conforme ainda Dom Murilo, a cura do cego, segundo milagre atribuído pelo Vaticano à beata, passou por três etapas de avaliação, com peritos médicos, teólogos e, finalmente, pelo colégio cardinalício, sendo reconhecido de forma unânime em todas essas etapas “como algo cientificamente inexplicável e duradouro”. “Agora, vamos esperar o consistório (reunião de cardeais) com a declaração oficial e definição da data da canonização, e então a Igreja, numa cerimônia belíssima presidida pelo Papa no Vaticano, colocará Irmã Dulce dos Pobres no altar dos santos”, disse. 

O fato ocorre em um mês considerado especial para todos que atuam nas obras sociais criadas pela freira, que, no próximo dia 26, completam 60 anos de fundação.

“Ficamos todos muito felizes, mas não é porque Irmã Dulce se tornará santa que todos nós seremos santos também. Precisamos aplicar o seu exemplo nas nossas vidas, seguir os seus passos, mantendo de pé e viva a sua herança na ajuda aos mais pobres. Precisamos multiplicar esse cuidado”, alertou Dom Murilo.

Homem recuperou visão, relata perito do caso

O médico perito que integrou a Comissão de Avaliação, Sandro Barral, contou que o homem, de aproximadamente 50 anos, trabalhava na área de informática e passou por um período de perda da visão, a partir de 1998, decorrente de uma doença severa, que preferiu não identificar, mas cujos sintomas se assemelham ao do glaucoma. Ele teria perdido completamente a visão devido à destruição do nervo óptico, precisando readaptar sua vida e se utilizar da companhia permanente de um cão guia.

"Ele pediu a intercessão da Protetora dos Pobres em sua cura”, comentou o médico. Segundo Barral, em 2014, o beneficiado foi acometido por uma forte conjuntivite, sentindo muita dor e, de repente, sem explicação, voltou a enxergar. Ele diz que ‘todos os exames apontam para um paciente cego, cujas lesões o impediriam de enxergar, mas ele enxerga”, garantiu. 

O caso é um das três graças alcançadas por devotos de Irmã Dulce, que estavam sendo analisadas pelo Vaticano, todos enviados pela OSID, em 2014, após análise de profissionais da instituição. O primeiro milagre atribuído à Irmã Dulce, que motivou sua beatificação em maio de 2011 refere-se à recuperação de uma paciente que teve uma grave hemorragia pós-parto e cujo sangramento cessou, de forma inexplicável, sem intervenção médica.

Quem foi a Irmã Dulce?

Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes nasceu em 26 de maio de 1914 em Salvador (BA). Segunda filha do dentista Augusto Lopes Pontes e de Dulce Maria de Souza Brito Lopes Pontes, a menina que gostava de soltar pipa e jogar futebol manifestou o interesse pela vida religiosa no início da adolescência.

Segundo a instituições Obras Sociais Irmã Dulce, por volta de 1927, aos 13 anos de idade, a adolescente começou a atender doentes no portão de casa, conhecida mais tarde como 'A Portaria de São Francisco', tal a aglomeração de desassistidos.

Em 1933, a jovem ingressou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, no Convento de Nossa Senhora do Carmo, em São Cristóvão (Sergipe). No mesmo ano, recebeu o hábito e adotou, em homenagem à sua mãe, o nome de Irmã Dulce.

Em 1935, Irmã Dulce iniciou um trabalho assistencial nas comunidades carentes, sobretudo nos Alagados, conjunto de palafitas que se consolidara na parte interna do bairro de Itapagipe. Nessa mesma época, começou a atender também aos operários, criando um posto médico e fundando, em 1936, a União Operária São Francisco - primeira organização operária católica do estado.

Em 1939 ocorreu o fato que definiu o futuro de sua ação social: a invasão de cinco casas, na Ilha dos Ratos, para abrigar doentes que não tinham onde ficar. Dez anos depois, Irmã Dulce ocupou, com autorização da sua superiora, o galinheiro do Convento Santo Antonio (inaugurado dois anos antes), levando para lá 70 doentes. 

A iniciativa deu origem à tradição oral propagada há pelo povo baiano de que a freira construiu o maior hospital da Bahia a partir de um galinheiro. Em 1959, foi estabelecida oficialmente a Associação Obras Sociais Irmã Dulce e, no ano seguinte, inaugurado o Albergue Santo Antônio.

Doentes, albergados, deficientes e órfãos: o trabalho assistencial de Irmã Dulce que respirava com apenas 20% da capacidade pulmonar, atingiu proporções ainda maiores nas três décadas seguintes, sendo definido pela própria freira como "a última porta" a quem recorrem os menos assistidos. 

Irmã Dulce morreu no dia 13 de março de 1992, aos 77 anos, no Convento Santo Antônio, ao lado de seus doentes. O túmulo da freira está na Capela das Relíquias, local para onde seus restos mortais foram transferidos após exumação, em 9 de junho de 2010. A visitação está aberta durante todos os dias, das 7h às 18h. A capela fica no Santuário de Irmã Dulce, na Avenida Dendezeiros do Bonfim (no bairro do Bonfim), em Salvador.

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