Vazamento de lama no Rio afeta vida em Laje do Muriaé

Os 2 bilhões de litros de lama com resíduos químicos vazados, na quarta-feira, da mineradora Rio Pomba Cataguazes para o rio Muriaé, em Minas, chegou ontem a mais duas cidades fluminenses e pode chegar hoje ao rio Paraíba do Sul. Como a mancha, que já atingiu outras duas cidades, está cada vez mais diluída, não houve inundações e nem foi necessário suspender o abastecimento público de água em Italva e Cardoso Moreira, onde vivem cerca de 30 mil pessoas. Em Laje do Muriaé, porém, o corte no fornecimento ainda não foi retomado, quatro dias após a suspensão. Em Itaperuna, o mais populoso dos quatro municípios afetados, com 100 mil habitantes, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) do Rio reforçou o trabalho na estação de tratamento e está conseguindo manter a situação de normalidade.O presidente da Cedae, Wagner Victer, fez uma consulta ao Ministério Público Estadual e decidiu ontem que, além da ação indenizatória contra a Rio Pomba Cataguases, vai solicitar que o MP entre com uma ação criminal contra os controladores da mineradora. "Eles precisam servir de exemplo de como deve ser a punição para quem pratica um crime ambiental e é reincidente. A empresa tem de ser fechada, e seus responsáveis, presos", declarou Victer, referindo-se ao vazamento da barragem da mineradora ocorrido em março passado.Em Laje do Muriaé, com cidade com 8.500 habitantes, às 6h já tinha fila na porta da Igreja Nossa Senhora do Bonsucesso. As pessoas não estavam interessadas na missa de domingo. Com baldes e latas nas mãos, queriam água. O mecânico Aparício Pereira da Silva Filho, de 53 anos, desceu a rampa da igreja duas vezes, com dois galões de 20 litros cheios no ombro. Gabriele, de 7 anos, e Cassiane, de 3, esperavam o avô dentro de um Fusca 1973. Eles moram no alto do morro e foram buscar a água, que vem de dois poços artesianos, para matar a sede. "Essa água é para beber, é mais pura. A gente está precisando." O padre Gervaso Gobato, de 67 anos, disse que a água pura é a contribuição da igreja para a cidade, prejudicada pela segunda vez em dez meses pelo rompimento da barragem da Rio Pomba. "Não cobramos nada", declarou. Moradora do morro do Querosene, Maria Faustino Aurélia reclamava que o caminhão-pipa não tinha ido até a sua casa. "Estou doente, não tenho como subir com os baldes."Diretor de interior da Cedae, Heleno Silva admitiu que nem todos seriam atendidos. No início da tarde, 11 caminhões-pipa chegaram à cidade. Um deles, com 8 mil litros, subiu até o alto do Morro do Cruzeiro. "É uma pindaíba só. Essa água aí só dá para tomar banho. Água para beber tem que buscar lá em baixo", disse Bianca da Silva, de 17 anos. Ela foi ajudada pela prima Ana Carla, de 3 anos, que carregava duas latas d´água. O prefeito de Laje, José Geraldo Pereira de Carvalho, avaliou ontem que a falta de abastecimento de água para moradores e indústrias pode levar a cidade a um estado de calamidade pública. Os prefeitos de Laje, Muriaé, Itaperuna, Italva e Cardoso Moreira se reúnem hoje com a Promotora de Justiça de Tutela Coletiva Débora da Silva Vicente para discutir a possibilidade de ação conjunta contra a mineradora.

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