Veículos são queimados em protesto

Prisão de acusados de tráfico provoca reação de moradores da Favela Tiquatira, interditando vias e Marginal

Bruno Tavares, José Dacauaziliquá e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

14 de maio de 2009 | 00h00

Um protesto pela prisão de três supostos traficantes da Favela Tiquatira, na Penha, zona leste de São Paulo, terminou ontem em confronto entre policiais militares e cerca de 150 manifestantes. Quatro veículos - um ônibus articulado, um micro-ônibus, um caminhão e um carro de passeio - foram incendiados na Avenida Gabriela Mistral, paralela à Marginal do Tietê. No tumulto, dois PMs tiveram ferimentos e uma mulher foi socorrida com suspeita de fratura na perna. A favela amanheceria ocupada por homens do 51º Batalhão para prevenir novos tumultos.A confusão começou às 16h30, depois que PMs em patrulhamento detiveram três rapazes em uma quadra de esportes do bairro. Ao perceberem a ação da polícia, um grupo de moradores da favela cercou a viatura para tentar impedir a prisão. Dois dos suspeitos conseguiram fugir. O único detido foi Vagner Barbosa da Silva, de 19 anos, com quem a PM diz ter encontrado 10 pinos com cocaína, 5 trouxinhas de maconha e 12 bolinhas de haxixe. A mãe dele, a dona de casa Maria Cristina Barbosa, de 39, acabou levada para a delegacia por ter investido contra os policiais.A prisão dos dois foi o estopim do protesto. Às 18 horas, um grupo bloqueou com pneus e pedaços de madeira a Avenida Gabriela Mistral. Um ônibus articulado do Consórcio Plus que fazia a linha 3301 (Terminal São Miguel-Parque D. Pedro) foi interceptado. Os passageiros tiveram de descer e, em seguida, os manifestantes atearam fogo ao ônibus. Os ataques se repetiram com os outros três veículos. "Estava parada no farol e eles chegaram com garrafas de gasolina e álcool nas mãos", disse a condutora do micro-ônibus filiado à Associação Paulistana, identificada apenas como Margarete. "Assim que tudo mundo desceu, eles começaram a dar tiros na parte de baixo do veículo."Minutos depois, a favela estava cercada por 120 homens de cinco batalhões. A PM usou balas de borracha e bombas de efeito moral para tentar dispersar os manifestantes. O helicóptero Águia ajudava no deslocamento da tropa em terra. No confronto, dois policiais - um tenente e um soldado - acabaram feridos a pedradas. Durante mais de 30 minutos, alguns dos principais acessos à Avenida Governador Carvalho Pinto, conhecida como Tiquatira, ficaram interditados, inclusive as pistas expressa e local da Marginal do Tietê, no sentido da Rodovia Ayrton Senna. Um supermercado vizinho à favela também teve de fechar seus portões por precaução."Viemos aqui para conter a manifestação e fomos recebidos a pedradas", afirmou o tenente-coronel Antônio Carlos Goulart, chefe do Comando de Policiamento de Área Metropolitana-11 (CPA/M-11). "Nossos homens ficarão aqui para restabelecer a ordem."Nenhum dos manifestantes ou suspeito de atear fogos nos veículos havia sido preso até as 23 horas de ontem. O tumulto foi registrado no 10º Distrito Policial (Penha). O rapaz preso durante a tarde seria autuado por tráfico e a mãe dele, por desacato. Parentes disseram que a polícia agiu com violência e negaram que Silva seja traficante. "Meu filho trabalha comigo como ajudante de pedreiro. Nunca mexeu com droga", disse o pai, o também ajudante de pedreiro Ronaldo Ferreira da Silva, de 38 anos. "A gente estava trabalhando numa obra e, como hoje (ontem) acabou mais cedo, ele foi para o campinho."Dois comerciantes que testemunharam a confusão também reclamaram da atuação da PM. "Nasci nesse bairro e posso dizer que o pessoal da favela é muito tranquilo. Foi a polícia que chegou jogando bomba e dando tiro", disse Pedro Ganav, de 68 anos, dono de uma loja de materiais de construção.Essa não foi a primeira vez que moradores da Tiquatira se rebelaram. Em agosto do ano passado, um grupo de 200 pessoas ateou fogo a um ônibus e apedrejou outro. Parte do grupo chegou a trocar tiros com a polícia. Na ocasião, suspeitava-se que a manifestação teria sido motivada por uma chacina ou pela morte de um criminoso, baleado pela PM durante um assalto a banco um dia antes.

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