Veja a íntegra do depoimento de Anísio da Beija-Flor

Aconteceram nesta quinta-feira os três primeiros depoimentos dos presos durante a Operação Hurricane (furacão, em inglês). Deflagrada pela Polícia Federal em 13 de abril, a operação prendeu 25 pessoas suspeitas de integrar um suposto esquema ilegal de compra de sentenças a favor do jogo ilegal. O primeiro a falar foi o presidente da Liga das Escolas de Samba do Rio (Liesa), Aílton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães. Logo depois, falou Aniz Abrahão David, presidente de honra da Beija-Flor. Veja a íntegra do termo interrogatório de Aniz "Processo n.º 2007.5101802985-5 TERMO DE INTERROGATÓRIO Em vinte e seis de abril de dois mil e sete, nesta cidade do Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro, na sala de audiências do Juízo da Sexta Vara Criminal Federal, achavam-se presentes a MM. Juíza Federal, Dr.ª ANA PAULA VIEIRA DE CARVALHO e os Procuradores da República, Dr. MARCELO FREIRE e Dr. ORLANDO MONTEIRO ESPÍNDOLA DA CUNHA, comigo Técnico Judiciário adiante declarado. Aí pelo MM. Juiz, feita ao acusado a observação do art. 189, do C. de Processo Penal, foi o mesmo qualificado e interrogado na forma abaixo: Nome: ANIZ ABRAHÃO DAVID Nacionalidade: brasileira Naturalidade : Rio de Janeiro Estado Civil: casado Nascido em: 9/6/1937 RG n.º 3.003.042 - IFP/RJ CPF n.º - Filiação: Abrahão David e Júlia Abrahão Residência: Av. Atlântica, 2172, 13.º andar - Copacabana Reside em imóvel próprio? sim Quais os meios de vida ou profissão e qual o lugar onde exerce a sua atividade? aposentado Escolaridade: 4.º ano primário Número de dependentes: 2 Em seguida, lido e achado conforme, passou o Dr. Juiz a interrogar a acusada na forma do art. 188 e seus incisos, I a VIII, do CPP, feita a observação de que o réu não está obrigado a responder as perguntas que lhe serão feitas, mas que o interrogatório é uma importante oportunidade de defender-se, tendo o acusado respondido o seguinte: que são seus advogados o Dr. Ubiratan Guedes e o Dr. Bruno Rodrigues; que não é verdadeira a acusação; que é dono de uma loja em Copacabana, que é de sua propriedade, alugada a um bingo; que o bingo se chama BINGO COPACABANA, ao que sabe; que há quatro meses o bingo está fechado e o interrogando não recebe o aluguel; que o aluguel vem sendo declarado ao imposto de renda; que não tem nenhuma relação com a ASSOCIAÇÃO DE BINGOS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO; que não sabe nem onde fica; que conhece os acusados AILTON GUIMARÃES JORGE e ANTÔNIO KALIL; que os conhece há muitos anos; que conhece ANTÔNIO desde que ele tinha um fábrica de roupas na Rua da Alfândega; que conhece AILTON desde a década de 70, quando ainda era capitão do Exército; que acha que ele ainda é capitão, só que reformado; que conhece JOSÉ RENATO GRANADO; que a família de JOSÉ RENATO morava perto da família do interrogando; que é amigo de JOSÉ RENATO; que sabe que JOSÉ RENATO tem uma firma de eletrônicos, mas não sabe exatamente do que se trata; que ele ajuda bastante a Beija-Flor e sai inclusive como diretor no carnaval; que não sabe dizer se ele tem alguma relação com bingo; que o interrogando só foi a um bingo três vezes em sua vida; que não conhece PAULO ROBERTO LINO; que conhece JÚLIO CÉSAR GUIMARÃES; que conhece JÚLIO GUIMARÃES porque é sobrinho de AILTON e porque ele faz parte da Liga das Escolas de Samba; que conhece muito pouco o policial MARCOS BRETAS e com ele não tem muita intimidade; que já o viu algumas poucas vezes na Liga; que nunca esteve com ele fora da liga; que MARCOS BRETAS não costuma resolver problemas jurídicos para o interrogando; que não conhece um delegado da polícia civil chamado ARTUR; que indagado se foi ouvido este ano em algum inquérito da polícia civil, respondeu negativamente, tendo informado que recebeu uma intimação em uma precatória da polícia de Minas, de uma cidade do interior, sendo certo que seu nome estava totalmente errado; que é proprietário da Mercedes-Benz preta, placa MTT - 0640; que não anda acompanhado de seguranças; que só no Carnaval tem dois ou três amigos em seu carro consigo; que o prédio da LIESA fica na Av. Rio Branco, 4; que não se lembra especificamente do encontro mencionado às fls. 2262 do volume 8 do inquérito; que tem certeza que não tem inquérito nenhum contra si na Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro ou em qualquer lugar do Brasil; que tem amigos policiais que freqüentam a Beija-Flor; que não se lembra do encontro recém mencionado e também não conhece Dr. ARTUR; que não se lembra se foi à LIESA no dia 27 de fevereiro de 2007, mas é bem possível que tenha ido, porque vai à LIESA duas ou três vezes por semana; que não houve encontro com um policial chamado ARTUR, juntamente com o policial civil MARCOS BRETAS; que já esteve com MARCOS BRETAS na LIESA; que conhece NAGIB TEIXEIRA SAUIB, morador de Nilópolis há muitos anos; que sabe que há vinte anos atrás NAGIB tinha uma firma de jogos eletrônicos, mas não sabe se ele ainda continua com esta firma; que ele também tem relação com a Beija-Flor, já que todo mundo de Nilópolis quer participar; que botam cerca de duzentos e vinte diretores participando no Carnaval, e estes diretores são da comunidade; que tem contato com ele uma vez por semana ou em alguns períodos uma vez por mês; que se falam por telefone, vez por outra; que conversam e se vêem por causa de Beija-Flor; que não sabe dizer se ele tem relação com bingo; que sabe que BELMIRO é irmão de JOSÉ RENATO, mas não tem intimidade com ele; que nunca tinha ouvido falar de LICÍNIO ou LAURENTINO; que na carceragem conversou com LAURENTINO e soube que se trata de uma pessoa com boa situação financeira, proprietário de vários hotéis; que achou engraçado porque determinado jornal citou LAURENTINO como "laranja" do interrogando, quando na verdade viu que LAURENTINO é mais rico que o interrogando, provavelmente; que não conhece JOSÉ LUIZ DA COSTA REBELLO; que não conhece os demais acusados, com exceção de MARCELO KALIL, filho de ANTÔNIO KALIL; que não sabe porque está "junto desse povo todo"; que desconhece o imóvel situado na Av. Conde de Bonfim, 682; que o deputado SIMÃO SESSIM é primo-irmão do interrogando; que a mãe de SIMÃO morreu cedo e a mãe do interrogando ajudou a criá-lo; que seu pai é irmão do pai de SIMÃO; que mantém contatos freqüentes com ele, por conta do parentesco; que nunca foi ao BARRA BINGO, dentro dele; que já esteve na porta do BARRA BINGO; que marcou uma vez encontro com JÚLIO GUIMARÃES, na porta do BARRA BINGO; que marcou encontro realmente com JÚLIO porque iam a um restaurante e resolveram deixar o carro por ali, porque iam se encontrar com duas mulheres; que como não houve o encontro, voltaram há cerca de vinte ou trinta minutos depois de estacionarem o carro próximo ao BARRA BINGO; que pararam o carro bem em frente ao BARRA BINGO; que todo mundo chama o interrogando de TIO em Nilópolis; que tem lá cerca de duas mil crianças que o chamam de TIO; que já foi proprietário de fábrica de fibra de vidro, já teve uma gráfica, foi criador de cavalos e é aposentado há pouco tempo; que negocia jóias, que inclusive foram apreendidas; que vive de vários aluguéis que tem; que tem uma renda mensal de cerca de R$ 100.000,00 (cem mil reais), declarada; que uma parte destes rendimentos é fruto de aluguéis, e a outra parte de negociações que o interrogando faz, seja com jóias, seja com imóveis; que foi condenado em 1993 pelo crime de quadrilha armada, muito embora tenham todos sido presos sem armas; que ficou preso por quase dois anos; que saiu na condicional e logo depois teve o indulto; que respondeu a um processo porque denunciou um preso de nome ALMIR, que queria tomar um dinheiro do interrogando na cadeia; que pouco depois este preso formulou uma denúncia contra o interrogando junto ao Ministério Público em atuação na Vara de Execuções Penais, alegando que o interrogando pretendia matá-lo; que respondeu a uma ação penal e acabou sendo absolvido; que apenas respondeu a estas duas ações penais. Indagado ao MPF se havia algum ponto a ser esclarecido, foi perguntado e respondido que a maioria das jóias que compra é jóia antiga, de trinta, quarenta anos e não tem documento; que tem um relógio de seu pai, que tem um emblema do Líbano atrás e é de brilhantes, que foi apreendido, e é seu relógio de uso; que este relógio deve ter também trinta ou quarenta anos; que até a aliança do interrogando foi apreendida e seu broche também; que os contratos, portanto, não são formalizados; que hoje não é sócio de nenhuma empresa; que reside em imóvel próprio, em Copacabana; que também construiu muito e vendeu os imóveis que construiu; que todo o dinheiro fruto dos imóveis que vendeu está depositado na CEF de Nilópolis; que guardou este dinheiro para os filhos; que tem imóveis baratos em Nilópolis e um outro apartamento no mesmo prédio onde mora; que são todos imóveis construídos há trinta ou quarenta anos, a não ser aquele onde mora; que é eleitor do Senador DORNELLES; que seu primo é do partido de DORNELLES e ambos sempre foram deputados juntos; que ambos são parlamentares juntos há cerca de trinta anos; que já conversou com ele por telefone e até pessoalmente; que indagado se apoiou a campanha do Senador DORNELLES enquanto presidente ou diretor da Beija-Flor, respondeu que não fazem campanha dentro da escola; que permite que os políticos distribuam panfletos dentro da escola; que não conhece nenhuma das pessoas relacionadas com a Justiça Federal e mencionadas na OPERAÇÃO FURACÃO; que nunca patrocinou a campanha de nenhum parlamentar, nem do seu primo; que pede voto para ele, mas nunca contribuiu financeiramente; que se afastou do jogo do bicho depois de sua condenação em 1993; que pessoalmente luta e torce pela legalização do jogo do bicho no Brasil, porque há muitas pessoas que trabalhavam e trabalham nisso e precisam ser legalizadas; que nunca atuou no ramo de loterias; que não chegou a conversar com o Senador DORNELLES ou com SIMÃO SESSIM sobre projeto de lei que tramitava no Senado sobre a legalização de jogos de azar, mas soube deste projeto e poderia ter conversado com os parlamentares sobre o tema, porque não vê nada de mais nisso; que todos os jogos oficializados no Brasil são iguais ao jogo do bicho, no entendimento do interrogando, porque são todos por sorteio; que não tem recursos no exterior. Indagado à DEFESA de ANIZ se havia algum ponto a ser esclarecido, foi perguntado e respondido que nunca teve nenhuma causa que tivesse tramitado na Justiça Federal; que na Justiça Estadual foram condenados em tudo; que indagado se tem algum trabalho social em Nilópolis, respondeu que tem uma creche com mais ou menos duzentas e oitenta crianças, e um educandário para mil e duzentas crianças; que a maioria dos amigos da cidade ajuda o interrogando nestas obras sociais; que nunca recebeu um tostão de recursos municipais, estaduais ou federais; que tentou fazer uma fundação, mas o pedido foi rejeitado; que há um trabalho social dentro da escola Beija-Flor, que oferece diversas modalidades esportivas, tais como balé, natação, dentre outras; que a creche tem trinta anos e o educandário dezoito; que o educandário é uma escola; que não conhece o ministro PAULO MEDINA; que os quarenta e sete mil dólares encontrados em sua residência foram declarados ao imposto de renda; que na declaração de imposto de renda mencionou expressamente que os dólares estariam na sua residência; que nunca viu o doleiro de nome COELHO; que não está entendendo nada desta acusação e não conhece a maioria das pessoas que constam da denúncia; que tem receio de que a presente ação penal seja semelhante à primeira, que, no entender do interrogando, foi utilizada pelas pessoas para promoção política; que tanto a juíza da época, quanto o procurador, quanto o presidente do Tribunal foram posteriormente candidatos ao parlamento; que o interrogando está se sentindo muito injustiçado; que gostaria de acrescentar que se colocado em liberdade, compromete-se a comparecer a todos os atos processuais e não tumultuar o processo de forma alguma; que tem dois filhos menores. Indagado às demais DEFESAS se havia algum ponto a ser esclarecido, foi dito que não. NADA MAIS. Do que, para constar foi lavrado o presente termo, que após lido e achado conforme, vai por todos assinado. Eu, , Jorge Alexandre Nicacio Calbo, Técnico Judiciário, o digitei. E eu, , João de Almeida Rodrigues Neto, Diretor de Secretaria, o subscrevo. JUÍZA MPF DEFESA ACUSADO"

Agencia Estado,

26 Abril 2007 | 21h33

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