Veja a íntegra dos depoimentos dos familiares das vítimas

Há um mês André Michel completou um ano de idade, ele ainda é muito pequeno para entender que neste sábado, 29, fez um ano que ele perdeu o pai. Ele o reconhece nas fotos espalhadas pela casa, no Rio de Janeiro, e até o chama sem ainda saber que não irá voltar.   O empresário Frederik Michel tinha 36 anos e era um dos 154 passageiros do vôo 1907 da Gol, que após se chocar com o jato Legacy, caiu no meio da mata no dia 29 de setembro de 2006. "Nem parece que faz um ano da última vez que falei com o meu marido. Ele estava feliz por voltar para casa. Há quase um mês estava em Manaus a trabalho", conta a jornalista Carolina Daher, 30 anos, mãe de André, 1 ano, e Larissa, 9 anos.   Veja também:   Especial sobre a crise aérea Falha humana causou tragédia da Gol Após um ano, familiares voam sobre destroços da Gol Parentes de vítimas de acidentes aéreos querem lei para indenizações   1º depoimento   Com a tragédia os planos de toda a família foram alterados de uma hora para outra. Eles estavam prestes a mudar do Rio de Janeiro para Manaus, no Amazonas. Carolina já tinha pedido demissão do emprego e só aguardava a volta do marido para fazer a mudança. "Ele ligou do aeroporto e disse: ‘te amo e estou chegando’. E foram suas últimas palavras", relembra a esposa.   O casal estava junto havia 11 anos e já tinham uma filha de 8 anos, Larissa. "Ela estava louca para mostrar os últimos trabalhos que tinha feito na escola. Depois de saber do acidente, ela se fechou em um mundo só dela. Não aceitou ajuda psicológica. Tentei florais de Bach, homeopatia, teatro, esporte, mas ela não quis." Carolina conta que a filha tinha o pai como herói, que jogavam videogame juntos e era a companheira de pescaria dele.   "Na sua sabedoria infantil, a minha Lali muitas vezes acalmou meu coração dizendo palavras de força: 'Mãe, você tem que entender que pelo menos para mim, para você e para o André o meu pai não vai morrer nunca'. E ela tem toda razão", diz Carolina.   Leia o relato completo de Carolina Daher sobre a morte do marido:   O André aproveitou pouco, muito pouco do pai maravilhoso que tinha. Mas foi o Fred que deu o primeiro banho, que cuidou do umbigo e que foi ao cartório registrar o filho. Mas ele nem mesmo chegou a ver os primeiros sorrisos de nosso pequeno. Um dos grandes dramas de quem passa por uma experiência tão traumática como a que passamos, são exatamente as primeiras vezes. O primeiro aniversário sem ele, o primeiro natal, o primeiro réveillon, a primeira noite na cama vazia...   Entrei numa viagem estranha: tinha medo de abrir o seu armário e o cheiro dele desaparecer no ar. Tinha medo de esquecer detalhes do seu corpo, as expressões que ele usava. Até hoje ainda não consegui me lembrar da sua voz. Existe um bloqueio que nem eu mesma sei explicar. Só há pouco tempo comecei a tirar as suas roupas do armário. Mas ainda deixei um pijama, um sapato, uma camisa, um short, uma calça... Quem sabe um dia ele não resolve aparecer?   É muito difícil aceitar a morte, por mais espiritualizado que se possa ser. A ausência física dói. O telefone que não toca, dói. É uma dor que não termina. Tenho dias mais felizes e dias de uma tristeza profunda.   Nesse um ano, a minha vida mudou radicalmente. Aprendi a comandar uma casa sozinha. Eu e o Fred estávamos juntos desde que eu tinha 18 anos e nunca havia tomado nenhuma decisão sem a sua opinião, sem a sua mão firme a me guiar. Passei a trabalhar mais para garantir o sustento dos meus filhos. Ao mesmo tempo, me cobro demais por passar tanto tempo longe deles. Me cobro por não poder ser igual a ele para a Larissa... O André sempre que vê as fotos do pai espalhadas pela casa, manda beijo e já fala "papá". Como gostaria que ele estivesse aqui para ouvir isso, ver os primeiros passos do filho. "Fred, meu amor, ele já está andando, acredita?", às vezes me pego falando sozinha, olhando para o céu.   A fase de ficar esperando sinais está passando. Durante muito tempo achava que tudo o que acontecia era de alguma forma um recado que ele estava tentando me mandar: uma lâmpada que queimava, uma estrela que surgia no céu mais cedo, uma pessoa que atravessa a rua me olhando de um jeito estranho. Passei muitas horas tentando decifrar os enigmas da vida no além. Li todos os livros espíritas que caíram nas minhas mãos. Freqüentei centros e foi ali que encontrei um pouco mais de paz. Às vezes, implorava desesperadamente por notícias. Queria apenas saber se ele estava bem...   A grana também sumiu. Ainda bem que tenho família e amigos. Eu havia pedido demissão pouco antes, em junho, para me mudar para Manaus. Ia acompanhando o meu marido que, enfim, foi promovido. Ali, a vida seria diferente, ainda guardo as fotos da casa que ele alugou e que nem chegamos a conhecer...   A minha sorte é que sempre fomos pés no chão e tínhamos comprado o nosso apartamento um ano antes depois de passar dez anos juntando dinheiro. Só consegui voltar ao mercado de trabalho e ao Rio de Janeiro por isso. Não conseguiria se tivesse que pagar ainda aluguel. O nosso padrão caiu de forma avassaladora. Ele era um executivo e cuidava das despesas da casa. O meu salário era para as crianças e para as flores, como costumo dizer. De repente, me vi diante de milhares de contas que nem sabiam que existiam. Ainda estou aprendendo a ser gente grande sozinha.   No entanto, nada dói mais do que não vê-lo entrando pela porta de casa todos os dias à noite. Seria uma noite comum, como tantas que tivemos antes. Mas como eram especiais. Mas eu não sabia. Meu Deus! Daria tudo por mais uma noite, uma hora, um minuto sequer com meu marido.   2º depoimento   Em Manaus, a professora Helena Rodrigues, 28 anos, mudou de bairro para superar a perda da irmã, Maria José Rodrigues. Maria José trabalhava como babá e costumava fazer várias viagens com os patrões. "Essa era mais uma viagem rápida, mas ela não voltou", lembra Helena.   A convivência familiar era tão estreita que, mesmo aos o acidente, a mãe passava tardes esperando na frente de casa a chegada da filha. Foi então que Helena decidiu mudar de bairro, para ficar perto de outros irmãos que já haviam casado. Agora, a mãe da professora tenta se distrair na casa dos parentes.   Leia o relato completo de Helena Rodrigues sobre a morte da irmã:   Ela morava ao lado da minha casa, estava casada havia dois anos. Eu morava com a minha mãe. Ela trabalhava, viajava muito com os patrões. Apesar de o avião estar desaparecido, celular nenhum pegava, e a gente continuava a ter esperança enquanto não saía a lista de mortos. Na realidade, às vezes a gente até não acredita.   Mudou tudo. Uma pessoa quase despediu, foi fazer uma viagem rápida e não voltou. Uma semana depois tivemos a oportunidade de enterrar o corpo da minha irmã, mas o caixão estava lacrado. E você não vê. A certeza você tem, mas a gente costuma acreditar no que vê.   Após o acidente, a minha mãe entrou em depressão. Começou o trabalho com o psicólogo. E a gente tenta passar uma força que a gente não tem. Porque precisa segurar as pontas. Em dois anos, a minha mãe perdeu um sobrinho, depois uma irmã e depois mais um irmão. No mesmo ano, perdeu a minha irmã também. Ela ficou muito abalada. Entrou em depressão. Vivia somatizando doenças, falava que ia morrer, que tinha uma doença grave, que tudo doía. Não tinha vontade de sair de casa. Várias coisas foram acontecendo e ela foi fazer o tratamento com a psicóloga.   Tínhamos um problema grave. Todo dia minha mãe ficava acordada esperando a minha irmã chegar do trabalho porque morávamos ao lado da casa dela. A gente resolveu sair de lá. Alugamos a casa em que estávamos e mudamos para uma outra, em um bairro mais próximo das minhas irmãs. E todo o sábado era um suplício. A gente mudou tudo, uma outra irmã, que era solteira, veio morar comigo e com a minha mãe.   A minha mãe era uma pessoa muito pacata, e hoje em dia ela não pára em casa. É uma maneira de ela fugir dos problemas, porque eu passo o dia fora, a minha irmã também. Para ela não ficar sozinha em casa, ela vai pra casa de algum irmão que mora perto, para distrair. Mas essa coisa de primeiro aniversário do acidente, a gente fica muito abalada. E o sofrimento volta na íntegra. Ontem a minha mãe passou o dia inteiro chorando, não comeu nada.   A minha irmã era a mais velha, ela assumiu um pouco da maternidade. E ela sempre foi muito presente nesse aspecto, ela não assumia a despesa da casa, mas procurava ajudar muito. Quando aconteceu o acidente da TAM, todas as vítimas do avião da Gol devem ter sentido mais. A gente sente mais falta da pessoa que perdeu em datas importantes. A Gol ajudou bastante. Meu cunhado se beneficiou, ele tem acesso aos benefícios.   Eu não me sinto no direito de ter algum benefício por um acidente sofrido pela minha irmã. Não me sinto no direito de acumular alguma coisa por ter perdido tragicamente uma pessoa. Problema financeiro por causa da morte não teve. Éramos muito independentes. Eu acho que nós vamos aprender a conviver. Não é fato de esquecer, mas aprender a conviver com o vazio.   Eu sempre fui muito dependente, mas dependendo da situação você aprende a ser forte. Sempre fomos de juntar todo mundo na cozinha. E os que estavam mais distantes sofreram menos. Sinto falta de tudo. No sábado ela ficava o dia todo em casa, saíamos para ir ao cinema, para comprar alguma coisa, sinto falta de companheirismo.   3ºdepoimento   Mudanças de planos também ocorreram na casa de Janice Honorato Campos Magalhães quando a filha mais velha, Rosana Guimarães, e o primeiro neto, Pedro Peixoto, morreram no acidente. "Ela morava em Manaus , mas estava sempre comigo, era minha parceira", diz Janice, que mora em Goiânia.   Mãe de quatro filhos, ela diz que há um ano todos eles tinham planos bem diferentes. "Estavam alçando vôo e de repente voltaram para o ninho. Parece que todo mundo quebrou a asa." O filho mais novo, que estudava em Viçosa (MG), não teve coragem de deixar os pais sozinhos em Goiânia e voltou para casa. Em seguida, a filha Renata, que fazia residência em Brasília, terminou o curso e também voltou. Há três meses foi a vez do mais velho , Rafael.   Leia o relato completo de Janice Honorato sobre a morte da filha:   Eu acho que vai ser uma coisa que não vai passar nunca. Nunca vou aceitar. A Rosana e o Pedro moravam em Manaus. A Rosana tinha terminado o curso de Medicina dela em Goiânia e, na mesma época, o namorado passou no vestibular em Manaus. Ela engravidou e foi pra lá. E decidiu fazer a residência em Manaus para investir no relacionamento. Era muito sonho que foi interrompido. Ela queria casar. Sonhava em ser médica, em ser bem-sucedida, em ser cirurgiã.   Já estava com viagem marcada para a Venezuela, porque ela ia ficar noiva lá, e levaria nove pessoas da família. Ia ser em novembro. Ela pediu pra todos tirarem passaporte para poder fazer a viagem. Ela já tinha marcado o casamento em uma igreja aqui em Goiânia para o dia 24 de março. Planos todos certos. A gente não tem uma assessoria. Num primeiro momento não caiu a ficha. A gente acha que é mentira. Depois vai passando o tempo, vai vendo que a saudade dói, que é real e nada resolvido. E nós não tivemos o apoio da Gol. Cada um dando murro em ponta de faca.   Na época do acidente, todos os filhos, que com a Rosana eram quatro, moravam fora. Eram duas meninas e dois meninos. Um dos meninos, o Rafael estava morando em Cristalina e o outro estava estudando agronomia em Viçosa. Em Goiânia, estávamos só o Toninho e eu. E no dia do acidente, estavam os três filhos em casa, só faltava a Rosana. E ela não chegou. No dia 30 era aniversário do meu marido.   Dessa época para cá, muita coisa mudou. O mais novo que estudava em Viçosa não teve coragem mais de voltar. Viu os pais aqui sozinhos e deixou a faculdade. Ele até tentou uma transferência para a Federal de Goiânia e conseguiu, mas não valia a pena porque os cursos eram bem diferentes. A Renata, que fazia residência em Brasília, voltou em janeiro para cá assim que terminou a residência. E há três meses o Rafael voltou também. Parece que todo mundo quebrou a asa. Estavam todos alçando vôo e de repente voltaram para o ninho.   A Rosana era minha parceira, ela me ajudava muito. Com a ida dela para Manaus, eu ampliei o meu mercado, porque eu trabalho com desenho. Afetou muito, porque hoje em dia não consigo nem trabalhar direito, não tenho mais inspiração, mais concentração. O meu marido está passando por uma readaptação. Porque é 24 horas pensando. Ele não começou a fazer tratamento psicológico, mas já está ciente de que precisa. Nossa vida inteira mudou de rumo.   Eu, na época, já tinha reduzido as despesas. Hoje não tem mais quatro casas para sustentar. A gente não passa mais dificuldade porque é muito controlado e porque teve ajuda dos parentes. Eu acho que quando completa um ano é muito pior, porque você põe o pé no chão e vê que a realidade sua é muito pior. É esse sofrimento, essa dor com a qual vai ter que conviver. No começo, você tem ilusão que aquilo vai passar.   O namorado dela também voltou para Goiânia, perdeu mais dois anos porque transferiu a faculdade para cá. Retrocesso de dois anos. Ele nasceu para a Rosana, ele era muito amoroso. Ele sofre muito. É difícil ter mudado algo para melhor.     4º depoimento   Jorge Feliciano Oliveira da Silva, 50 anos, pai de Filipe Carvalho da Silva, que tinha 23 anos quando morreu. Após o acidente, Feliciano se tornou representante regional dos familiares de Recife.   Leia o relato de Jorge Feliciano sobre a morte do filho:   Passou um ano e parece que foi ontem. Está muito vivo, muito recente, tudo o que aconteceu. Às vezes ficamos imaginando que ele está viajando, que irá voltar. Não acreditamos ainda que o Filipe morreu.   Somos eternamente gratos à imprensa. A Gol se coloca como vítima também. Ela não se move, ajudou um pouco no começo, depois mais nada. O tratamento médico foi dado só para os pais. (Jorge tem outros dois filhos Carol, 24 anos, e Cássio, 17 anos).   Eu e minha esposa (Valéria) estamos em tratamento psicológico. Também estamos em tratamento cardiológico intensivo. Estamos com pressão alta. Minha esposa está com distúrbio de pânico. Meu querido Felipe está comigo. Está em nossas orações. Deus nos dá uma tranqüilidade muito grande. A nossa família tem uma formação religiosa muito forte. Mas a saudade é grande.   Os irmãos, avós, tios, todos sofrem. Os irmãos sofrem tanto quanto os pais. O acidente aconteceu de forma muito trágica. Os irmãos fazem tratamento psicológico porque têm convênio médico. As oito famílias de vítimas de Recife estão muito unidas. Eu sou o representante regional dos familiares de Recife.   O Filipe era muito brincalhão, extremamente alegre, nos faz muita falta.

29 Setembro 2007 | 17h47

Mais conteúdo sobre:
Gol 1907 crise aérea

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.