Veja íntegra do depoimento de Capitão Guimarães no Rio

Aconteceram nesta quinta-feira os três primeiros depoimentos dos presos durante a Operação Hurricane (furacão, em inglês). Deflagrada pela Polícia Federal em 13 de abril, a operação prendeu 25 pessoas suspeitas de integrar um suposto esquema ilegal de compra de sentenças a favor do jogo ilegal. O primeiro a falar foi o presidente da Liga das Escolas de Samba do Rio (Liesa), Aílton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães. Veja a íntegra do termo interrogatório de Guimarães: "Processo n.º 2007.5101802985-5 TERMO DE INTERROGATÓRIO Em vinte e seis de abril de dois mil e sete, nesta cidade do Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro, na sala de audiências do Juízo da Sexta Vara Criminal Federal, achavam-se presentes a MM. Juíza Federal, Dr.ª ANA PAULA VIEIRA DE CARVALHO e os Procuradores da República, Dr. MARCELO FREIRE e Dr. ORLANDO MONTEIRO ESPÍNDOLA DA CUNHA, comigo Técnico Judiciário adiante declarado. Aí pelo MM. Juiz, feita ao acusado a observação do art. 189, do C. de Processo Penal, foi o mesmo qualificado e interrogado na forma abaixo: Nome: AILTON GUIMARÃES JORGE Nacionalidade: brasileira Naturalidade : Rio de Janeiro Estado Civil: casado Nascido em: 23/11/1941 RG n.º 3.635.295 - IFP/RJ CPF n.º 028.697.217-49 Filiação: Felippe Jorge e Geny Guimarães Jorge Residência: Praia de Icaraí, 59/1202 - Niterói/RJ Reside em imóvel próprio? sim Quais os meios de vida ou profissão e qual o lugar onde exerce a sua atividade? Agente financeiro Escolaridade: superior Número de dependentes: 3 Em seguida, lido e achado conforme, passou o Dr. Juiz a interrogar a acusada na forma do art. 188 e seus incisos, I a VIII, do CPP, feita a observação de que o réu não está obrigado a responder as perguntas que lhe serão feitas, mas que o interrogatório é uma importante oportunidade de defender-se, tendo o acusado respondido o seguinte: que é seu advogado o Dr. Nélio Machado; que não é verdadeira a acusação; que é agente financeiro; que trabalha com ações e é consultor de seus clientes nesta área; que foi oficial do Exército e fez letras; que estudou um pouco de economia e quando saiu do Exército resolveu ser agente financeiro; que já teve envolvimento com o jogo do bicho; que entrou no jogo do bicho a partir de 1982, quando a atividade passou a ser tolerada pelo então Governador LEONEL BRIZOLA; que ficou neste ramo até 1993, quando foi condenado pela Justiça Estadual; que não tem nenhuma relação com casas de bingo; que tem um sobrinho que é dono de uma casa de bingo, JÚLIO GUIMARÃES; que nunca teve máquinas de caça-níquel e nunca fez parte de empresa alguma; que nunca explorou atividades de bingo ou de caça-níqueis; que não conhece o acusado SÉRGIO LUZIO; que nunca ouviu falar dele; que conhece JOSÉ RENATO GRANADO FERREIRA; que ele era diretor da Beija-Flor; que não tem intimidade com ele e não sabe dizer se ele é ligado a bingos; que nunca viu PAULO ROBERTO LINO; que hoje conhece por causa da carceragem; que também não conhece BELMIRO MARTINS, LICÍNIO SOARES ou LAURENTINO FREIRE; que nunca os tinha visto até o dia 13 de abril; que também não conhece JOSÉ LUIZ DA COSTA REBELLO; que nunca tinha ouvido falar de JAIME GARCIA DIAS; que também não conhece EVANDRO DA FONSECA; que também não conhece SILVÉRIO NERY CABRAL JÚNIOR; que não conhecia VIRGÍLIO MEDINA ou LUIZ PAULO DIAS DE MATOS; que conhece NAGIB SAUID da Beija-Flor; que conhece JOÃO OLIVEIRA DE FARIAS, vulgo JOCA; que ele é amigo de JÚLIO, seu sobrinho, mas não mantém nenhuma relação de amizade com ele; que conhece MARCELO KALIL; que conhece a família de MARCELO KALIL há mais de trinta anos, já que ele é filho de seu ANTÔNIO, também acusado; que somente tem uma relação de tio-sobrinho com JÚLIO GUIMARÃES; que quando estava à frente da Liga, JÚLIO o ajudava no Carnaval; que ele era o coordenador dos jurados; que era o presidente da Liga, até sua prisão; que foi presidente nos últimos seis anos; que nunca ouviu falar do Desembargador CARREIRA ALVIM, até o dia 13; que também nunca ouviu falar do Desembargador RICARDO REGUEIRA; que conhece o Juiz Trabalhista DÓRIA; que não tem intimidade ou empatia com ele; que apenas o encontra esporadicamente na Liga, quando ele vai lá, uma vez ou outra; que conhece o policial MARCOS BRETAS; que MARCOS BRETAS trabalha com o sobrinho do interrogando; que andam juntos; que não sabe dizer qual é o trabalho dele com seu sobrinho; que seu sobrinho é advogado e não sabe se MARCOS faz a segurança pessoal dele; que não conhece SÉRGIO LUZIO nem nunca conversou com ele; que não tinha nenhum contato com MARCOS BRETAS, o que pode ser verificado através das interceptações telefônicas; que indagado, tendo em vista o teor de alguns diálogos interceptados, se teria ciência das negociações entre JÚLIO e MARCOS BRETAS, respondeu negativamente; que não tem nenhuma relação com o BINTO ICARAÍ, assim como não tem com nenhum bingo; que não conhece e nunca foi no imóvel situado na Av. Conde de Bonfim, 682; que indagado se conhece MARQUINHOS, amigo de MARCÃO (MARCOS BRETAS), respondeu que só pode responder vendo a pessoa; que MARQUINHOS é um nome muito comum; que não sabe nem onde fica a ASSOCIAÇÃO DE BINGOS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO; que já foi no aniversário do filho de MARCÃO, de um ano; que ele também já foi à casa do interrogando; que ele foi acompanhado de seu sobrinho JÚLIO; que não participou e sequer sabia da existência de um encontro entre um delegado de polícia civil chamado ARTUR e os co-réus MARCOS BRETAS e ANÍSIO, na LIESA; que não contribuiu para a campanha da deputada MARINA MAGESSI; que não sabe dizer se seu sobrinho contribuiu; que na condição de dirigente da LIESA sempre foi muito procurado por candidatos e políticos em geral porque é politicamente interessante ter o apoio das escolas de samba; que por vezes pedia a presidentes de escola de samba que ajudassem determinados candidatos que pretendiam distribuir material de campanha em algumas comunidades; que seu filho mais velho, AILTON GUIMARÃES JORGE JÚNIOR, de trinta e cinco anos, é o prefeito da Cidade do Samba; que não sabe dizer se ele conhece o policial MARCOS BRETAS; que já respondeu a vários processos, mas foi absolvido em todos; que foi condenado pelo crime de quadrilha a 3 (três) anos, sendo que cumpriu quatro anos e nove meses; que gostaria de acrescentar que está se sentindo "massacrado", sendo que após ler a denúncia e todo o alegado pelo MPF não conseguiu enxergar um único diálogo ou prova que o ligasse aos fatos narrados na denúncia; que acha que foi incluído nesta investigação apenas por ser o "CAPITÃO GUIMARÃES", sem que tenham colhido qualquer prova neste sentido; que não tem nenhuma relação com compras de decisões judiciais e sequer conhece nomes de pessoas relacionadas à Justiça. Indagado ao MPF se havia algum ponto a ser esclarecido, foi perguntado e respondido que trabalha como agente financeiro como autônomo, pessoa física; que faz estudos e apresenta a seus clientes; que nestes últimos anos, a bolsa de valores esteve muito favorável, de forma que teve oportunidade de fazer seus clientes ganharem dinheiro e ele próprio interrogando ganhar dinheiro; que ganha comissão de seus clientes e tudo que ganha, declara; que a relação com os clientes não é contratual; que é uma relação "de boca"; que com este boom da bolsa ganhava cerca de R$ 400.000,00 (quatrocentos mil reais) por mês; que ganhava estes valores em contratos não formalizados, como esclarecido; que sua atuação na LIESA não é remunerada; que tem imóvel próprio e mora na Praia de Icaraí, no número 59, apto. 1202; que tem contas em bancos; que não tem aplicações no exterior; que atua como agente financeiro desde 1981; que os valores recebidos e declarados vêm aumentando ao longo dos anos; que vez por outra podem cair; que agora "vai cair total"; que nunca freqüentou casas de bingo; que paga imposto de renda há quarenta e cinco anos. Indagado às DEFESAS se havia algum ponto a ser esclarecido, foi dito que não. NADA MAIS. Do que, para constar foi lavrado o presente termo, que após lido e achado conforme, vai por todos assinado. Eu, , Jorge Alexandre Nicacio Calbo, Técnico Judiciário, o digitei. E eu, , João de Almeida Rodrigues Neto, Diretor de Secretaria, o subscrevo. JUÍZA MPF DEFESA ACUSADO"

Agencia Estado,

26 Abril 2007 | 21h30

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