Velocidade de avião definiu tragédia

Perito descarta combustível e excesso de peso; pane, chuva e possível erro humano causaram a morte de 24 pessoas

Mariana Barbosa e Liege Albuquerque, MANAUS, O Estadao de S.Paulo

11 Fevereiro 2009 | 00h00

Uma conjunção de fatores denominada estol causou o segundo maior acidente aéreo da história do Amazonas - a queda no sábado de um turboélice Bandeirante no Rio Manacapuru, no meio da viagem entre Coari e Manaus, que deixou 24 mortos. O termo aeronáutico significa que houve perda de sustentação provocada por uma queda brusca na velocidade da aeronave. Isso teria ocorrido por causa de três fatores: falha mecânica, chuva e erro humano. Excesso de peso e combustível adulterado, as primeiras hipóteses levantadas, estão descartadas. O detalhamento está no primeiro laudo da queda do PT-SEA, que será entregue amanhã por um perito para a Bradesco Seguros, responsável por segurar o turboélice.A tragédia começou por uma pane mecânica na turbina esquerda do Bandeirante, por motivos que ainda precisam ser esclarecidos pela Aeronáutica - que ainda pode mandar para o exterior a caixa-preta com as últimas gravações de voz do bimotor. "Essa pane não impediria que a aeronave continuasse até a pista, se não fossem os outros dois fatores: as péssimas condições meteorológicas na hora do acidente, um fato, e a possível falha do piloto", afirma o professor de gestão de riscos aéreos da Universidade Federal Fluminense (UFF), Gustavo Mello, contratado pela seguradora do avião para analisar e preparar auditoria sobre as causas do acidente.Segundo Mello, cada avião tem uma velocidade específica para conseguir sua sustentabilidade no ar. A do Bandeirante é de 130 quilômetros por hora. "Essa velocidade baixou com a pane na turbina e por conta do temporal. Por fim, uma curva feita pelo piloto para tentar chegar à pista em Manacapuru ou voltar a Coari também afetou a velocidade. O piloto chegou a dizer à torre que iria retornar."O engenheiro frisou que uma eventual falha do piloto numa hora de pânico não é decisiva numa análise de seguro, quando em conjunto com outros fatores que causaram a queda. Mello esteve no local do acidente ontem, investigando em paralelo com os técnicos do Centro Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes (Ceripa).Segundo ele, o impacto da aeronave com a água foi "absurdo". "As pás da turbina direita, que estariam funcionando na hora do choque, estão totalmente empenadas e há um rombo no piso da aeronave feito por um tronco que está no fundo do rio", afirmou. Segundo os investigadores, outra prova da velocidade final exagerada está no laudo cadavérico: 80% das vítimas morreram com o impacto, com o pescoço quebrado, e não afogadas.HIPÓTESES DESCARTADAS"Tenho 90 dias para o relatório definitivo, mas neste primeiro já conseguiremos descartar excesso de peso e combustível adulterado, as mais apontadas nas especulações", afirmou Mello. O excesso de peso como causa - o avião tinha capacidade para até 21 pessoas, mas levava 28 - foi descartado pelo perito depois de uma estimativa de carga, somada ao peso da aeronave e à quantidade de combustível no tanque até o ponto do acidente.O peso dos passageiros foi estimado com base em fotos das vítimas e sobreviventes e dados do MGO (Manual Geral de Operações) da Aeronáutica, que determina o peso médio das pessoas. "Embora o documento em que o piloto defina o peso das bagagens tenha se perdido, a estimativa (e a indicação da coleta inicial de peças) é de que era pouca, até pelo histórico dos passageiros. A maioria vinha para uma festa na capital", disse. De acordo com o engenheiro, o peso da aeronave estava abaixo do "envelope de voo" do Bandeirante, ou seja, de sua capacidade máxima de peso, que é de 5.670 quilos.Quanto ao combustível adulterado, segundo Mello, é das hipóteses "mais improváveis e absurdas". "Não há abastecimento em Coari, apenas no Aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus, que faz o abastecimento de todas as aeronaves que saem de Manaus, cuja pista tem toda segurança possível e apenas um posto da BR para abastecimento", disse. "Dizer que o combustível do Bandeirante estava adulterado é dizer que qualquer voo que sai da capital amazonense está em risco."

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