Vereador se diz indignado e inútil e renuncia ao cargo em Barretos

Indignado por não ver seus projetos aprovados colocados em prática pelo prefeito Uebe Rezeck (PMDB), Alberto Barros, presidente do diretório local do PDT, renunciou ao cargo de vereador de Barretos, 424 quilômetros a noroeste de São Paulo, na sessão realizada na noite da últimaquarta-feira."Eu tinha um sonho, um ideal, e nada pude fazer, me sentia um inútil", diz Barros, que era o segundo secretário da Mesa Diretora e abdicou do salário de R$ 3 mil. Ele espera voltar ao cenário político, desde que ocorram mudanças de postura daCâmara. "Nem comecei os meus projetos e cansei de esperar", garante ele, já preocupado em se justificar perante seus eleitores e afastar os boatos que surgiram, de que ele teria vendido o mandato. "Não entrei na política e nem saí dela por dinheiro."Depois de 26 meses ocupando uma das 17 cadeiras de vereador, após ser eleito com 878 votos em 2000, então pelo PTB, Barros surpreendeu os colegas e encaminhou ofício à direção da Câmara, destacando a renúncia "em caráter irrevogável, por motivos de saúde, que exigem tratamento fora do município, assim como de ordem pessoal,familiar e profissional".Depois leu um pronunciamento aos colegas, no plenário, e em entrevistas deixa claro o motivo: a indignação em não conseguir ajudar a populaçãobarretense. Um de seus vários projetos aprovados e que estariam engavetados pelo prefeito, citao do complemento de uma lei federal, que obriga a destinação de vagas em áreas públicas para os deficientes."Sempre fui de oposição, mas nunca deixei de votar em projetos do Executivo, desde que não pessoais", afirma Barros, de 40 anos, que temsete filhos e estava em seu primeiro mandato. Agora, estatístico, se dedicará ao cargo de diretor do instituto Perfil, Pesquisa de Opinião Pública.Segundo o ex-vereador, 97% dos votos que o elegeram foram do bairro Zequinha Amêndola, conhecido como Barretos 2, na periferia, que reúne cerca de 12 mil pessoas. "Tinha vergonha de andar pelas ruas esburacadas, de ver a iluminação, a saúde e a segurança precárias e falar que era vereador, pois nada podia fazer, já que o vereador não tem acesso aos recursos e só pode fazer projetos, indicações erequerimentos", explica ele. "Não estava com minha consciência tranqüila.""Hoje, como cidadão e presidente do PDT, posso ajudar mais a população do que como vereador",diz Barros, que está preparando uma carta para se justificar perante seus eleitores. "Seo eleitor me perdoar e entender a minha fraqueza, pretendo voltar à política."Ele diz, em entrevista e no texto da renúncia, que sempre defendeu a moralidade, a ética e fezdenúncias de situações que prejudicavam a população, como o uso de material públicona reforma de um colégio particular ligado ao prefeito.O ex-vereador afirma que se desgastou, por isso menciona o problema de saúde no ofício enviado à Câmara. "Estou numa fase de estresse avançado, em relação à política mesmo." O presidente da Câmara, Angelo José Duarte (PMDB), lamentou a renúncia de um vereador "atuante". Rezeck não foi encontrado para comentar o caso.Eis, ainda, um trecho do pronunciamento de renúncia de Barros: "Essa renúncia não é pelo medo. É pela coragem, para lembrar que a dignidade humana não tem preço."

Agencia Estado,

07 de março de 2003 | 15h31

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.