Versão de ex-jogador é contestada

Para delegada, 14 facadas não sustentam tese da legítima defesa

Bárbara Souza e Daniela do Canto, O Estadao de S.Paulo

28 de março de 2009 | 00h00

Nas mais de cinco horas de depoimento durante a madrugada de ontem no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), no centro de São Paulo, o ex-jogador de futebol Janken Ferraz Evangelista, de 29 anos, alegou ter matado a ex-mulher Ana Cláudia Melo e Silva, de 18 anos, em legítima defesa e confirmou que a discussão entre eles foi motivada por ciúme. A delegada Flávia Maria Rocha Rollo disse, porém, que a tese apresentada pela defesa pode não se sustentar por causa da "discrepância das lesões" - ele apresenta um corte na mão e Ana Cláudia morreu em decorrência de 14 facadas.Para a delegada, Evangelista matou a ex-mulher por ciúme. "Pelos elementos colhidos, acreditamos em motivação passional", disse. O advogado de defesa, Mauro Otávio Nacif, afirmou que o fato de Evangelista ter golpeado Ana Cláudia várias vezes não derruba a alegação de legítima defesa. "O mecanismo psíquico de uma pessoa não é aritmético, ela vai se defendendo e vai dando facadas até se livrar de uma situação perigosa", justificou.Flávia Maria não descarta convocar para depor no DHPP o goleiro do Santos Fábio Costa, com quem Ana Cláudia estaria conversando por telefone celular no momento da briga com Evangelista. O aparelho será periciado pela Polícia Civil e resultado sairá em 20 dias.Ontem de manhã, após o depoimento, Evangelista falou com a imprensa e chorou várias vezes ao narrar os momentos da discussão com Ana Cláudia. "Eu peguei ela falando no telefone com uma pessoa. Depois que eu peguei o celular, era o Fábio Costa (goleiro do Santos). Eu peguei ela falando no telefone com o cara, falando que não deu para ficar depois do jogo (entre o Corinthians e Santos, no Pacaembu) porque ?o pai do meu filho estava comigo. O pai do meu filho estava comigo no jogo, ele pesou na minha o dia todo hoje?", contou.Evangelista disse ter tomado o celular de Ana Cláudia, que mordeu o seu dedo. Os dois caíram no chão e o ex-jogador conseguiu pegar o aparelho. "Foi aí que ela se virou, pegou a faca e veio para cima de mim. Aí, eu tomei a faca da mão dela", disse. Em seguida, ela teria pegado a faca novamente. "Aí a gente caiu no chão, rolamos e tudo isso aconteceu."O ex-jogador então fugiu do apartamento levando o filho do casal, de 1 ano e 8 meses. Ele foi preso na quarta-feira na Bahia. Em depoimento, disse que não sabia que havia matado a ex-mulher. Na entrevista, Evangelista disse não ter noção de quantas facadas deu na vítima. Afirmou ainda que queria retomar o relacionamento. "Eu amava ela, o que eu mais queria era voltar com ela, todo mundo sabe disso." O acusado insinuou que pegou mensagens de celular trocadas por Ana Cláudia com outro homem. Quando questionado sobre o suposto relacionamento de Ana Cláudia com o goleiro Fábio Costa, um dos advogados interferiu: "Não, não, isso ele não vai responder." O ex-jogador ignorou a instrução e disse: "Com certeza." O jogador nega.Levado ontem ao Centro de Detenção Provisória de Vila Independência, Evangelista vai responder por homicídio qualificado (motivo fútil, sem chance de defesa da vítima), subtração de incapaz (por ter fugido com o filho) e furto de celular.

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