Versão de peritos contradiz polícia sobre morte de assaltante que matou PM

Divisão de Homicídios aguarda perícia oficial para esclarecer se morte resultou de troca de tiros com policial ou se ele foi executado após deixar o local do crime, na Avenida Rio Branco

Gabriela Moreira, O Estado de S. Paulo

19 Novembro 2010 | 19h36

RIO - Peritos e médicos ouvidos pelo Estado afirmaram nesta sexta-feira, 19, que o assaltante Douglas da Silva Pereira, de 25 anos, que matou com um tiro na cabeça o policial militar Bruno de Castro Ferreira após assalto no Centro do Rio, na última quarta-feira, entrou em choque e morreu quase instantaneamente depois de baleado. As conclusões colocam em dúvida a versão da Polícia Militar, segundo a qual o assaltante morreu a caminho do Hospital Souza Aguiar, após ser alvejado pelo soldado ainda na Avenida Rio Branco. Nas imagens feitas com exclusividade pela reportagem, Douglas aparece consciente e sem ferimento nem sangramento aparentes, o que não seria possível se tivesse levado o tiro apontado no laudo de necropsia, segundo os especialistas.

 

As análises dos profissionais foram baseadas na necropsia feita no corpo de Douglas, que dá como causa da morte "hemorragia interna por laceração hepática e da veia porta". Segundo o cirurgião vascular Ivan Arbex, chefe de Clínicas Cirúrgicas do Hospital Municipal Salgado Filho, a veia porta é responsável pela irrigação do fígado e, uma vez rompida, provoca sangramento abundante. "Uma lesão nessa veia produz um sangramento violentíssimo. Se não houver uma intervenção médica imediata, ocorre um choque instantâneo", disse.

 

Nas fotos, o assaltante aparece deitado na avenida por pelo menos sete minutos. Segundo a PM, ele já estaria baleado, mas, na opinião do perito criminal Mauro Ricart, mesmo que a marca do tiro (que perfurou o assaltante) esteja encoberta, a lesão constatada pela necropsia provocaria um intenso sangramento. "Ele foi muito manipulado. Foi puxado de um lado para o outro, isso acelera a hemorragia. O tiro desse calibre (40) faz um rombo por dentro. A entrada do projétil, no entanto, é pequena."

 

Em algumas imagens, o policial militar que continha Douglas chega a apoiar-se sobre as costas do assaltante, usado o joelho. Para Ricart, a compressão desta região facilitaria o sangramento. "Visto que o tiro teria provocado uma hemorragia, a pressão teria acelerado o sangramento", diz.

 

Falta. A Divisão de Homicídios aguarda o resultado de perícias para esclarecer se Douglas foi morto numa troca de tiros com o PM ou se ele foi executado após deixar o local do crime. Além do resultado da necropsia, que dirá por onde entrou e por onde saiu o tiro, os investigadores querem saber se havia vestígios de pólvora nas mãos do PM morto. A delegacia também pediu à PM um histórico do sinal de GPS instalado na viatura que transportou o assaltante. Para percorrer o trajeto de 1,3 quilômetro entre a Rio Branco e o Souza Aguiar, os policiais que levaram Douglas demoraram 11 minutos. Também é esperado o resultado da perícia na arma do policial, para saber se foi mesmo disparada.

 

Depois de três dias, Douglas foi enterrado, ontem, às 12h, no cemitério do Caju, no bairro de mesmo nome, zona norte. Cerca de 20 pessoas acompanharam o sepultamento. Não houve velório.

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