''Vi o PM chorar e dizer: matei uma criança''

Testemunha culpa policiais por morte; não há indícios de tiroteio na favela

Pedro Dantas, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

Embora a Polícia Civil do Rio ainda não tenha sido procurada por nenhuma testemunha do assassinato de Matheus Rodrigues Carvalho, de 8 anos, morto anteontem com um tiro de fuzil, moradores da Favela Baixa do Sapateiro, no Complexo da Maré, zona norte, disseram, no enterro, ter presenciado o crime. "Meu marido varria a calçada e viu dois policiais agachados em posição de tiro. Fizeram um disparo. Eu estava na parte de cima e desci. Vimos o PM passar chorando e dizendo ?matei uma criança?", relatou a autônoma Alcione Eustáquio, de 56 anos. Ela assegurou que vai depor.A Polícia Civil não encontrou indícios de que houve troca de tiros na viela onde o menino foi morto, o que contradiz a versão apresentada pela Polícia Militar, de que o menino foi vítima de bala perdida durante um tiroteio entre traficantes rivais. "Não havia marcas de outros disparos ou cápsulas deflagradas e há indícios de que a outra marca de tiro na porta foi feita pela mesma bala que atingiu a cabeça do menino", afirmou o delegado-titular da 21ª Delegacia de Polícia, Carlos Eduardo Pereira Almeida. Ele disse, porém, que "nenhuma versão está descartada" e "é cedo" para acusar a PM.O delegado fez um apelo para que as testemunhas compareçam à delegacia. "Até agora ninguém prestou depoimento dizendo que viu os policiais atirarem. Podem telefonar, mandar carta ou comparecer. Qualquer informação sustentável será apurada." Ele vai aguardar o exame de balística nos quatro fuzis e quatro pistolas apreendidos dos policiais que estavam na favela - e também o laudo da perícia no local do crime, que deve ser entregue em até 30 dias. "O laudo vai dizer se houve tiroteio e de onde partiu o tiro."O secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, disse que, "caso haja qualquer indício de disparo nas armas, os policiais serão punidos e vão responder administrativamente e criminalmente". No enterro de Matheus, no Cemitério de Caju, o clima era de descrença na investigação - foram exibidos cartazes contra a política de segurança. Segundo relatos de moradores que disseram ter presenciado o crime, PMs faziam uma operação na favela e estavam atrás de um rapaz que portava um radiotransmissor. De acordo com Alcione e outros moradores, a dupla que teria matado Matheus não estava entre os quatro policiais que se apresentaram. Além disso, o número da viatura apresentada pela PM difere do que foi anotado por moradores.

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