Antonio Augusto/TSE
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Viagem ao fundo da urna eletrônica

Como já travei combates contra as ameaças à democracia em outros países, nada mais justo que fazer o mesmo no Brasil. Foi assim que participei de um tour exclusivo sobre Urnas Eletrônicas no TSE, em Brasília

André Fran, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2022 | 10h00

Curioso que eu, que viajei para os mais distantes cantos do globo em coberturas sobre ditaduras autoritárias, extremismo fundamentalista, terrorismo político... fui viver aqui no Brasil uma das mais relevantes situações de ataque à democracia. Como todos sabemos, o voto é a nossa maior arma (com perdão da palavra) democrática. O voto consciente segue sendo um dos mais eficientes instrumentos de preservação de direitos, mudança política e transformação social. Algo conquistado à custa de muito sangue, suor e lágrimas. E que evoluiu em sua forma, processo e logística desde que foi definitivamente implementado aqui no Brasil.

Lá no início, antes da informatização, as urnas eram de madeira. Você imagina a dificuldade de transportar e armazenar aquele troço em um País de dimensões continentais e onde o voto é obrigatório. Pouco tempo depois, passamos a adotar as urnas de lona, que facilitaram o processo mas não ajudaram tanto em termos de segurança e apuração. Foi só nos anos 1990 que o Brasil finalmente desenvolveu seus primeiros modelos das famosas urnas eletrônicas, as maquininhas que vieram pra dar mais agilidade e segurança aos nossos processos eleitorais. Hoje, esse abençoado aparato está ao alcance de todos os eleitores e mudou totalmente a cara das eleições brasileiras. Em poucas horas, todo cidadão brasileiro pode ter acesso ao resultado das eleições por aqui. Isso é coisa rara nos países que ainda usam cédulas de papel, por exemplo. E onde o resultado oficial pode demorar semanas até ser divulgado, gerando aflição, especulação e desconfiança que nada contribuem com ela, a democracia.

Mas apesar de já ser usada no país há 26 anos sem nenhum caso de fraude, ainda tem gente por aqui que por nenhum motivo concreto além de arrumar uma desculpa para questionar nosso eficiente processo democrático, odeia as famosas maquininhas. Com base apenas em muita desinformação, desconhecimento, fake news e teorias de conspiração, eles pegaram as urnas eletrônicas como um símbolo de disputa ideológica e alvo perfeito para ameaçar a democracia por interesses próprios. É um tal de "urnas eletrônicas foram hackeadas", "milhões de votos foram anulados pelas urnas", "só três países no mundo usam urnas eletrônicas"... Então, se eu, como disse, fui a campo para travar o bom combate contra a desinformação e as ameaças à estabilidade democrática em outros países, nada mais justo que fazer o mesmo quando o inimigo mora ao lado aqui na minha terra natal. Foi assim que fiz as malas e embarquei às pressas para participar de um tour exclusivo sobre Urnas Eletrônicas realizado exatamente em nosso Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília.

Era uma segunda-feira de sol, quando desembarquei no planalto central armado apenas de uma câmera, caneta e bloco de anotações. Eu seria recebido pelo grande Rafael Azevedo, Coordenador de Tecnologia Eleitoral do TSE ou, como passei a chamá-lo: o mago das urnas eletrônicas. Minha missão era gravar ali um dos episódios da série Meme Explica, que produzo para o Canal Futura, e nesta temporada nosso objetivo é explicar, como o nome do programa já diz, alguns temas que viraram alvo de campanhas de desinformação durante o processo eleitoral brasileiro, como: pesquisas eleitorais, sistemas de governo, fundo partidário e, a cereja do bolo, as urnas eletrônicas. Passear pelos diferentes departamentos do TSE tendo o especialista Rafael como guia era um misto de visita a museu, com brinquedo da Disney e bunker de guerra. Uma operação complexa, envolvendo centenas de profissionais gabaritados em um ambiente altamente tecnológico.

A cada parada, um novo departamento cercado de segurança, novas explicações sobre os atributos das urnas e uma demonstração prática da eficiência das mesmas. Visitamos a sala dos códigos fonte, onde diversas entidades como partidos políticos, ministério público e forças armadas podem verificar o sistema das urnas a cada eleição, conhecemos o gigantesco depósito de urnas com a reserva técnica nacional do TSE, onde aprendi que nossas bravas maquininhas são capazes de suportar quedas, chuva e até incêndios, e terminei o rolé (ou rolê) com o nosso coordenador realizando praticamente uma autópsia ou vivissecção de uma urna eletrônica na minha frente para destrinchar o quão inviolável e seguras são essas máquinas democráticas. A integridade e sigilo dos votos é total. O que não quer dizer que as urnas não sejam auditáveis, existem testes públicos onde qualquer brasileiro acima de 18 anos pode chegar lá no TSE e tentar corromper nossas doces e puras engenhocas. Spoiler: até hoje ninguém conseguiu.

Um dos motivos pelo qual eu fui tão bem recebido no TSE é que, além de garantir a eficiência e segurança de nosso processo eleitoral, um dos principais objetivos do órgão hoje é combater a desinformação sobre as urnas. O tour que eu realizei foi sensacional, mas a verdade é que não é preciso algo tão complexo ou mesmo uma visita guiada por um dos maiores especialistas em tecnologia eleitoral do País para desbancar as mentiras que espalham pela internet (ou em encontros presidenciais com embaixadores do mundo todo) sobre as urnas eletrônicas. Deu orgulho ver o quão competente é nosso sistema eleitoral e seu aparato eletrônico. Exemplo para diversos países, alguns dos mais desenvolvidos do planeta, que também utilizam esse tipo de equipamento. Me senti imbuído da missão de ajudar o TSE nessa luta contra as ameaças à nossa urna eletrônica, ao nosso processo eleitoral e à nossa democracia. Uma luta que cabe a cada um de nós, seja fazendo um programa na TV, escrevendo uma coluna no jornal ou simplesmente combatendo as fake news toscas que chegam pelos grupos de zap da família. Ainda que venham de fontes oficiais. A verdade você já sabe onde encontrar. E não precisa nem se deslocar ao nosso TSE para isso.

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