Vice dos sonhos, Aécio sobe o tom das críticas ao PT

Escalado para falar antes de Serra, ex-governador mineiro levanta plateia e encoraja militância a comparar os governos FHC e Lula

Christiane Samarco e Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2010 | 00h00

Levantar a plateia era a missão do ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves na cerimônia que o PSDB montou para lançar a pré-candidatura de José Serra à Presidência, ontem, em Brasília. E ele conseguiu.

Estrategicamente escalado para se pronunciar antes de Serra, Aécio assumiu a postura de candidato de oposição e subiu o tom nas críticas ao PT com uma contundência inédita. Ao final, convidou Serra para iniciar a pré-campanha por Minas.

Apesar do atraso na chegada, Aécio já entrou aclamado pelos militantes que entoavam o coro de "vice, vice, vice". Da lista dos ilustres do PSDB, ele foi o último a chegar ao evento, mas arrebatou o público no instante em que subiu ao palco. Disse que seu objetivo foi o de encorajar a militância a fazer todo tipo de embate durante a campanha, inclusive o ideológico e o da comparação entre os governos Lula e Fernando Henrique Cardoso.

Tucanos e aliados do DEM e do PPS não têm dúvida de que Aécio é o nome perfeito para compor a chapa puro-sangue do PSDB ao Palácio do Planalto. Em sua fala, ele mostrou que está disposto a se engajar na candidatura do partido, fazendo a tradução política do anúncio de que não seria mais candidato a presidente, em dezembro do ano passado. "Naquele momento, dei o primeiro sinal de que estaria a seu lado, Serra".

Ao longo do discurso, foi interrompido quatro vezes por aplausos e saudações. Sorriu, mas saiu dizendo que é candidato ao Senado por Minas Gerais. Para muitos, no entanto, Aécio deixou uma brecha para esta possibilidade, com uma frase dirigida a Serra: "Estarei a seu lado onde quer que eu seja convocado".

A cúpula tucana se encheu de esperanças e Serra comentou ali mesmo que ficara "felicíssimo" com o discurso. Mais tarde, porém, Aécio explicou que se dispusera a ajudar na campanha onde quer que o candidato o requisite, em Minas ou fora de seu Estado. Disse que não se referiu à chapa presidencial.

Citando governo a governo desde a eleição indireta de Tancredo Neves, seu avô, Aécio disse que a participação do PSDB sempre esteve ligada aos grandes momentos da história brasileira, como o impeachment de Collor e o lançamento do real, no governo de Itamar Franco - cujo ministro da Fazenda era Fernando Henrique Cardoso. "Não há nada do que nos envergonhar."

A fala de Aécio deu mais força política ao discurso de Serra, que em seguida se auto-propagou como o "candidato da união". Aécio fez questão de afirmar que, a partir daquele instante, "o candidato de Minas Gerais é José Serra". Voltando-se ao pré-candidato, acrescentou: "Serra, a partir de hoje, sua voz será a nossa voz".

As delegações mineiras que se deslocaram para Brasília eram o retrato vivo do engajamento que Aécio alardeava no discurso. "Minas é Serra", lia-se em camisetas de militantes. Em outras, a frase era "Somos Aécio. Todos por Serra e Anastasia", em referência ao governador Antonio Anastasia, que sucedeu Aécio.

A postura oposicionista de Aécio foi bem recebida, sobretudo porque, dias antes, a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, avaliara Aécio como "governador exemplar". Ela chegou a falar em dobradinha entre os partidos em Minas, sugerindo uma chapa híbrida para presidente e governador, chamada "Dilmasia" ou "Anastadilma."

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