Vigilante que confessou 39 mortes diz que doava dinheiro roubado

Tiago Rocha afirmou que passava aos 'necessitados' as quantias obtidas em assaltos e mortes; advogado deixou o caso 

Marília Assunção, Especial para O Estado

20 Outubro 2014 | 17h30

GOIÂNIA  - Durante os interrogatórios a que foi submetido, o vigilante Tiago Henrique Gomes da Rocha, de 26 anos, suspeito de matar mais de 40 pessoas e promover quase cem assaltos, afirmou que dava "para pessoas necessitadas" o dinheiro que tomava nos assaltos. A declaração foi colhida pelo delegado Eduardo Prado, da força tarefa que atua no caso. 

Nesta segunda, 20, o rapaz prestaria novos depoimentos, mas o advogado dele, Thiago Huascar, não pôde comparecer pela manhã porque fazia um júri, e à tarde anunciou que estava abandonando a defesa. À reportagem, Huascar disse que saiu por divergências com os familiares do vigilante sobre os valores de honorários acertados anteriormente. A reportagem não conseguiu localizar os familiares. A mãe de Rocha tentou visitar o filho na cadeia pela manhã, mas não conseguiu.

No dia 14, quando o vigilante foi preso e a casa dele revistada, foram encontrados menos de R$ 1 mil. Mas, entre os assaltos que Rocha teria praticado, havia casas lotéricas e supermercados, de onde tirava todo dinheiro dos caixas, apontando armas, sob clima de muita violência e sempre se escondendo com o capacete de motociclista na cabeça, como mostram imagens de câmeras de segurança de alguns dos estabelecimentos, que permitiram o reconhecimento do rapaz. "Difícil crer que ele dava o dinheiro, mas tudo está sendo investigado", destacou Prado em entrevista ao Estado na sexta-feira, 17. 

O perfil econômico do vigilante não combina com o de um criminoso "esbanjador", que obtinha dinheiro de variados furtos. Ele reside com a mãe em um barracão nos fundos de um lote no conjunto Vera Cruz, bairro de classe média baixa. 

Aparentemente, possui apenas a motocicleta que utilizava para matar e assaltar. Também não portava objetos, joias e roupas caras. O salário de vigilante lhe rendia em torno de R$ 1.300 por mês e havia relatos de que ele não contribuía com as despesas da casa.

Antes de deixar o caso, Huascar afirmou que o cliente dizia que comprava "roupas e ia ao cinema com o dinheiro dos assaltos", mas o ex-defensor achava a hipótese "fantasiosa".

Por outro lado, Rocha tinha várias manias, como utilizar calçados muito parecidos e roubar placas de motocicletas com números dobrados. Declarou diversas vezes que escolheu aleatoriamente as 39 vítimas já relacionadas -  22 mulheres e 17 homens, dos quais 8 eram moradores de rua. Parte dos homens é composta de homossexuais e entre as mulheres havia duas garotas de programa, sendo as demais estudantes, a maioria bastante jovem.

Exames. O perito forense Leonardo Faria confirmou nesta segunda que antes do final de semana o vigilante deverá passar por exames e testes psicológico. Os exames servirão para iniciar o diagnóstico sobre possíveis problemas mentais, ou descartar essa possibilidade, indicando se  tratar apenas de um criminoso inteligente e manipulador.

A principal tese do ex-advogado do suspeito, Thiago Huascar, era a de que o vigilante tem transtornos mentais e precisa de tratamento. Ainda não se sabe quem será o próximo defensor e nem se manterá a mesma tese.

Bebida. A presença do suposto serial killer em uma das celas da Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos, que fica no complexo das delegacias especializadas da Polícia Civil, quebrou a rotina do lugar que agora recebe jornalistas locais e até de outros países. A segurança dele é prioridade máxima  - o suspeito continua insinuando situações de suicídio, como chegou a tentar na semana passada, cortando os pulsos. Agora ele insiste em pedir a agentes e delegados que forneçam uma caixa de fio dental, ironizando quando perguntam se ele pretende usar o produto para se ferir. 

No final de semana, Rocha fez comentários estranhos, tais como o que aconteceria se ele matasse presos aos ser transferido para o Complexo Prisional, o que pode ocorrer a qualquer momento. "Ele dizia que estava com vontade de matar", contou o delegado Eduardo Prado, em entrevista à TV Anhanguera.

Rocha também pediu que fossem levadas várias revistas para ele e chamou a atenção dos agentes ao manusear e ler as publicações do fim para o início, lendo todas os exemplares levados.  Ainda houve um momento em que ele se declarou estressado, pediu bebidas alcoólicas e reclamou por não fazer a barba e cuidar da higiene pessoal como gostaria.


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