Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

'Vigília da luz' esgota moradores no Amapá

Estado teve novo apagão na terça-feira, o que aumentou dificuldades em Macapá para guardar alimentos e gerir equipamentos

Alcinea Cavalcante e Rayane Penha, Especial para O Estado de S. Paulo

18 de novembro de 2020 | 20h08

MACAPÁ - “Essa noite, eu não dormi nada. Meu corpo está exausto, pedindo arrego. Foi a mesma coisa que aconteceu no primeiro apagão, a mesma sensação. Era o apagão dentro do apagão.” O relato do músico Washington de Oliveira, que mora na zona oeste de Macapá, resume as dificuldades vividas no Amapá, com a nova interrupção do fornecimento de energia na terça-feira. Noites mal dormidas, esgotamento físico e mental e até a queima de aparelhos prejudicam os moradores.

O Estado chegou ao 16.º dia do apagão que afeta 13 dos seus 16 municípios. Um cronograma no rodízio de fornecimento de energia, elaborado pela Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA), previa três horas de fornecimento. Mas, segundo moradores, não vem sendo cumprido, o que faz com que permaneçam acordados à espera de luz.

O empreendedor Claudionor Santos, que mora na zona oeste de Macapá, teve sua loja de produtos de tecnologia incendiada na segunda - o fogo começou depois que o ventilador queimou, com a volta repentina de energia. “Por uma pequena falta de atenção minha por causa de todo esse cansaço mental que essa falta energia nos causa, esqueci um ventilador ligado na tomada. A energia chega com uma força imensa que vem queimando tudo que possa estar ligado na rede elétrica. Pegou fogo e começou a queimar tudo dentro.”

A perda de eletrodomésticos queimados virou rotina em Macapá. Dono de uma empresa de comunicação e gráfica, Euder dos Santos Pereira, de 39 anos, ainda não calculou o prejuízo, mas sabe que “é grande, muito grande”. Por causa da campanha eleitoral, investiu em máquinas, chapas, papel, tinta para atender os candidatos com cartazes, santinhos e adesivos. “No auge da campanha, como se não bastasse a pandemia, veio o apagão e junto com ele prejuízos.” Ele diz não ter como ligar as máquinas, pois com o vai-e-vem de energia  corre o risco de queimá-las.

O estudante Gabriel Santos teve a televisão queimada. “O racionamento está extremamente desorganizado. Tem horas que a luz não volta ou atrasa uma, duas horas. As pessoas em casa ficam estressadas por causa do calor, de toda essa situação e ontem (terça) teve o apagão geral de novo. Está um caos”, critica.

A empregada doméstica Ivanete Oliveira, 49 anos, perdeu a geladeira e a televisão compradas com sacrifício, segundo conta. Os dois aparelhos queimaram em um dos momentos em que a energia voltou. Sem geladeira, ela vai ao mercado duas vezes por semana e salga a carne que compra para que não apodreça.

“Nunca mais dormi direito. Vou trabalhar com sono e dor de cabeça. As noites têm sido horríveis. Muito calor e carapanã (mosquito). Passamos a noite nos revezando, eu e minha filha, abanando meu neto de um ano. A gente nunca sabe a hora que a energia vem e a hora que vai. Não dá para se programar." Sem energia, falta água. Para cozinhar, lavar roupa e limpar os banheiros, ela tem de encher baldes no poço da vizinha. 

Solução

A previsão é que o fornecimento total de energia seja restabelecido em Macapá no dia 26 quando deve entrar em operação um transformador que foi transportado de Laranjal do Jari (no sul do Estado) para a capital.  Depois de 30 horas de viagem, o transformador chegou a Macapá no começo da madrugada. Nesta quarta-feira, 18, os técnicos começaram o trabalho de verificar se durante o trajeto houve algum tipo de avaria. Depois disso, o equipamento passará por testes.

O apagão também prejudicou a coleta de sangue no Instituto de Hematologia e Hemoterapia do Amapá (Hemoap). Nas primeiras 96 horas de apagão no Estado, o Hemoap não realizou coletas e foi preciso contar com a solidariedade de hemocentros de outros Estados. O Pará, por exemplo, mandou 140 bolsas de sangue e Brasília mandou 30 bolsas de concentrado de plaquetas.

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