Vilarejos afetados têm ao menos 200 anos

Francisco Eduardo de Andrade, historiador da Universidade Federal de Ouro Preto

Roberta Jansen, Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 03h04

MARIANA - Os vilarejos de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira, destruídos pela lama, têm uma história que remonta há pelo menos duzentos anos. São vilas, ou arraiais, criados para a produção agrícola que sempre sustentou a mineração.

“A agricultura sempre esteve articulada à exploração mineral, é um suporte fundamental”, afirma o historiador Francisco Eduardo de Andrade,  da Universidade Federal de Ouro Preto. “Desde o final do século XVII há roças, plantios de gênero para a alimentação dos exploradores que adentravam o sertão. Essas roças vão se tornando pontos de pouso e abastecimento para as tropas e têm também função militar de confrontar grupos indígenas mais hostis.”

Embora isso não esteja ainda comprovado historicamente, existe a possibilidade de alguns desses vilarejos terem sido também quilombos. “As referências a quilombos na área de Mariana no século XVIII são muito disseminadas, principalmente nessa região a nordeste da sede do município, onde estão Bento e Paracatu”, explica. “Havia um grande ajuntamento de escravos na região, por conta da mineração e da agricultura”

O ciclo do ouro na região teve seu auge na primeira metade do século XVIII, dando lugar a uma predominância da extração do ferro. “A extração do ferro se difunde de maneira muito significativa ao longo do século XIX.”

A história da mineração na região também se confunde com a da expansão do catolicismo. Numa das regiões mais ricas do país, a igreja se fez presente com mão de ferro, para catequizar índios e escravos.

“Mas nem sempre o catolicismo serve ao controle”, diz. “Ele é um elemento constitutivo da identidade das pessoas que moram nas minas. O catolicismo têm flexibilidade suficiente para integrar tanto o europeu, quanto o africano e o índio. O catolicismo foi uma grande saída para a sobrevivência de muitos africanos, propiciando uma união comunitária em busca da superação do cativeiro ou de um cativeiro mais digno.”

Em Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira, as igrejas ainda mantêm essa função comunitária, de unir a população, de criar redes de segurança, de forjar sua própria identidade.

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