Vilma Martins Costa: a um passo da liberdade

Mulher que tirou dois bebês das famílias está em regime aberto há dez dias e apenas dorme na cadeia

Valdir Sanches, GOIÂNIA, O Estadao de S.Paulo

30 de junho de 2008 | 00h00

Francisca Ribeiro da Silva parece sofrida demais para falar sobre a mulher que levou sua bebê recém-nascida do quarto da maternidade, em 1979, há 29 anos. "Ela vai ter de prestar contas a Deus." Disse isso ao saber que aquela mulher, Vilma Martins Costa, condenada a 15 anos e 9 meses de prisão, recebeu um novo benefício da Justiça de Goiânia, onde tudo ocorreu. No último dia 20, uma sexta-feira, Vilma passou a cumprir pena em regime aberto. Ela é também autora de um outro seqüestro de bebê que chocou o País - o de Pedrinho, levado de uma maternidade de Brasília, em 1986.Só 16 anos depois desse caso, em outubro de 2002, descobriu-se que era Vilma a autora dos dois seqüestros. Pelos dois crimes, acabou condenada à prisão. Pedro Tapajós Braule Pinto, o Pedrinho, então um adolescente, acabou aceitando os pais naturais, Jayro e Maria Auxiliadora (que haviam empreendido uma comovente e incessante busca pelo filho). Mas a filha de Francisca da Silva, Aparecida Fernandes, preferiu continuar morando com Vilma, que a registrara como Roberta Jamilly. "Ela não tem amor à gente", diz com voz cansada a mãe natural. "Não quero mais saber de nada dessa história."Na sexta-feira, Vilma foi à audiência na Vara de Execuções Penais, no Fórum de Goiânia, muito bem vestida, com vistosos óculos escuros, cabelo com luzes, argola nas orelhas e muitos anéis. Nos autos, ela surge, desde as primeiras folhas, como empresária. Nos anos em que passou no presídio de Aparecida de Goiânia, cidade vizinha da capital, estava mais gorda e sem cuidados. Cumprido um sexto da pena, em 2005, ganhou o regime semi-aberto. Agora, foi para o aberto. É a progressão da pena, prevista em lei. Sua situação, no entanto, não muda muito. Às 20 horas da mesma sexta, como faz todos os dias, desde 2005, apresentou-se à Casa do Albergado, num bairro de Goiânia. Cumprindo a rotina, uma agente de segurança revistou sua bolsa e todos os seus pertences. Depois, ela entrou em um banheiro, onde as albergadas se despem para a revista. Liberada, transpôs duas portas com grades (depois trancadas) e entrou em um dos "quartos" onde passaria a noite. O quarto tem dois beliches, uma cama e um colchão no chão, e banheiro (no de Vilma dorme apenas ela). A porta é de ferro, com ferrolho externo. Essa, na verdade, é a rotina de todas as presas nos regimes semi-aberto e aberto em Goiânia (diferentes dos de São Paulo). No primeiro caso, dormem na Casa do Albergado, e saem para trabalhar (têm de comprovar a existência do emprego). No segundo, o de Vilma, agora, dormem lá, e passam o dia fora, sem, necessariamente ter de trabalhar. Essa situação, para Vilma, mudará em agosto, quando tiver cumprido um terço da pena. Se não fizer nada errado, receberá o livramento condicional. "É o que o nome diz, liberdade mediante condições", explica o juiz titular da Vara das Execuções Penais da cidade, Wilson da Silva Dias.As condições são parecidas às que o juiz substituto Eder Jorge expôs a Vilma, na audiência. Tem de ter convivência harmoniosa com a família e a sociedade, não pode mudar de endereço sem avisar, só pode sair de Goiânia com autorização, não pode portar armas nem beber. "A senhora concorda com estas condições ?", perguntou, o juiz. "Concordo, sim", respondeu a beneficiada. Foram suas únicas palavras, na audiência que durou nem cinco minutos.A exigência para todas as etapas da progressão da pena é o bom comportamento. Na Casa do Albergado, a agente de segurança Lucimar Balestra diz que Vilma "é tranqüila", não dá problemas. Mas, em setembro de 2006, conseguiu autorização para internar-se em um hospital - é diabética e tem pressão alta - e não voltou na data prevista. Foi considerada foragida. Acabou por se apresentar, com advogado, e o episódio foi superado.Três meses depois, um jornal de Goiânia a surpreendeu disputando com outras freguesas as mercadorias da "queima de estoque" de uma loja, num shopping center. Também foi vista em um pesque-pague, tomando cerveja. Por causa de fatos como esses, a Justiça não concedeu dois benefícios - indulto e prisão domiciliar - e tratamento médico fora da Casa do Albergado.

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