Rodrigo Carvalho/AFP
Rodrigo Carvalho/AFP

'Vinham prometendo uma chacina desde novembro', diz filho de vítima de Fortaleza

Áudios que circulavam no WhatsApp já alertavam para um possível ataque na região de Cajaseiras

Bruno Ribeiro, enviado especial a Fortaleza, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2018 | 12h27
Atualizado 29 Janeiro 2018 | 15h57

Foram três ou quatro carros, os relatos são diferentes. De dentro dele, saíram homens armados que, com calma, começaram a efetuar disparos. O marceneiro Glauber Souza de Oliveira, de 24 anos, conta que seu pai, o comerciante Antonio José Dias de Oliveira, de 54 anos, só teve tempo de jogar o filho e a mulher para trás da barraca de lanches que mantinha na frente do Forró do Gago, em Cajazeiras, Fortaleza, cenário da maior chacina da história do Ceará. O comerciante morreu na hora. 

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Glauber conta que, em mensagens de áudio compartilhadas pelo WhatsApp, a chacina no bairro já vinha sendo prometida desde novembro passado. Nas ameaças, integrantes da facção Guardiões do Estado (GDE), diziam que "iam matar todo mundo" no bairro, visto como área de influência do grupo carioca Comando Vermelho (CV), facção rival ao GDE.

 

"Meu pai era marceneiro, mas tinha o sonho de abrir o próprio negócio. Quando o forró começou a ficar cheio, ele montou uma barraca na frente. Vendia lanches, salgados, coxinhas, suco, café", diz o filho. 

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"Ele ficou entre o poste e a barraca quando começou o tiroteio. Meu irmão, que estava junto, foi jogado pelo meu pai para trás da barraca. A mulher dele estava junto e ele jogou ela também. Meu irmão foi atingido por um tiro na perna. A mulher do meu pai não levou tiros", conta o rapaz, que mora em um bairro vizinho à chacina e só soube do ocorrido horas depois.

Oliveira tinha nove filhos, de dois casamentos. O mais novo tem um ano, completado recentemente, segundo o marceneiro - foi o pai que o havia ensinado o ofício.

O rapaz conta que, apesar das ameaças, não se pensava que o ataque seria no forró. "É um forró normal, que vai todo mundo. Não era um lugar que era festa de facção. Pelo que contam, todo mundo começou a correr, mas eles entraram e começaram a atirar em um por um. Falaram que, depois que atiraram, ainda ficaram por lá mais um tempo, deram volta na rua. Só depois de uns 40 minutos foram embora", relata. 

Na manhã deste domingo, enquanto fazia reconhecimento e cuidava das burocracias relacionadas à liberação do corpo do pai, Oliveira comentava o ocorrido dizendo que aquele era o resultado de uma escalada de violência que se notava havia mais de um ano. "Não foi um fato isolado. Foi uma coisa que foi crescendo", dizia, ainda em choque.

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