Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

25 Março 2018 | 14h40

SÃO PAULO - Apreciar um disco de vinil é quase um ritual. E não dos mais simples. Colecionadores dizem que começa pelo visual (do encarte e da capa), passa pelo tato (do gesto de pegar o disco e colocá-lo para tocar), chega ao olfato (do material sintético) e, por fim, começa a audição do tão cultuado som analógico.

Em segundo plano desde os anos 1990, o suporte ganhou novo fôlego em 2008, com um aumento de vendas internacionais que alguns poderiam considerar apenas mais uma moda passageira. Dez anos depois, o vinil bate recordes anualmente, atraindo até mesmo um público que o conhecia apenas na infância ou nunca nem sequer havia escutado um exemplar.

No restaurante e loja Conceição Discos, a chef Talitha Barros, de 37 anos, frequentemente se surpreende com um cliente envolvido pelo acervo de LPs que vende e oferece para audição no local. “As pessoas se amarram. Manejam, olham. Quem não tem vitrola em casa, compra e deixa aqui para ouvir aqui”, conta.

Desde a inauguração, em 2014, a ideia era deixar disponíveis alguns discos que mantinha em casa, como uma “graça” para os frequentadores. Mas a procura foi maior que esperava (com venda média hoje de 100 a 150 LPs por mês) ela precisou triplicar o tamanho do acervo. Além do aspecto sonoro, Talitha vê também um lado afetivo no consumo. “Remete à lembrança de um tio, pai, padrinho que apresentou o disco à pessoa, traz isso da vida pessoal, conectado a essas memórias de um mundo que um dia existiu”, diz a dona do espaço, na Santa Cecília, no centro paulistano.

 

Para o sócio-fundador da Caverna Discos, Carlos Caverna, de 42 anos, a retomada do vinil também está ligada ao fato de as pessoas que apreciavam o suporte na infância, nos anos 1980 e 1990, terem chegado aos 40, 50 anos, quando há maior estabilidade profissional, pessoal e econômica. “É uma faixa etária que o cara já tem grana para comprar um aparelho legal, ter um som legal que ele sonhava antes.” 

Mas também há espaço para quem está sem dinheiro e só quer ouvir música. “É um lugar para ouvir um som legal, comer um queijinho, tomar uma cerveja. Muitos clientes aqui viram meus amigos”, conta.

++++ Demanda leva à criação de fábrica de vinil em SP em 2016

O próprio Caverna, embora grande apreciador, se aproximou do vinil há 6 anos quando deixou um emprego como engenheiro eletricista para lançar a loja - que vende principalmente aparelhos de som, faz reparos e também promove pocket shows. Ele deixou para trás um salário de R$ 10 mil e teve de vender parte da própria coleção de discos para iniciar o negócio. 

“Foi a parte mais dolorosa”, diz, antes de citar conquistas que angariou trabalhando no meio, aproximando-se de músicos que vão da banda Baiana System a Jerry Adriani, que lhe presenteou com todos seus discos autografados pouco tempo antes de morrer. “Quando deixei o trabalho, diziam que era louco, mas eu estava estressado, ficando doente mesmo. Isso aqui mudou a minha vida.”

Comércio. Foi o vinil que trouxe novos caminhos também para a revista de música Noize. Lançada em 2007 em Porto Alegre, a publicação resolveu, alguns anos depois, ampliar seu modelo de negócio. Formou-se uma equipe de curadoria e criou o clube de assinaturas Noize Record Club (NRC) - que passou a ter lançamentos bimestres a partir de julho de 2017. Dentre os 12 discos do clube, estão uma reedição de Os Afro Sambas, de Vinicius de Moraes e Baden Powell, e as primeiras versões em LP 9 de  Luas (1996), de Os Paralamas do Sucesso, e Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (2009), de Otto.

Junto do álbum, a Noize envia uma revista com conteúdo relacionado ao trabalho do artista. “Ler uma revista e ouvir um disco são rituais parecidos, experiências que se somam”, compara o editor da NRC, Ariel Fagundes, de 28 anos.

Hoje, todos os álbuns estão esgotados e o total de assinantes passou de 300 para mil, além da venda avulsa. A ideia é ir adiante e começar a lançar álbuns mensalmente ainda em 2018. Embora o perfil de assinantes seja variado e esteja em todos os Estados, o NRC reúne sobretudo paulistanos, cariocas e gaúchos entre 21 e 40 anos. 

+++ A 'vinilmania' em discussão

“A cada edição, nos conectamos com um público diferente. Quando teve o disco do Otto, vieram muitos assinantes do Nordeste. O Paralamas agora também trouxe público mais amplo, que é bem diferente do Boogarins (de rock psicodélico), por exemplo”, diz. 

É o caso, por exemplo, do designer e youtuber Guilherme Henrique de Oliveira, de 32 anos, que passou a assinar o clube após o lançamento de um disco de Liniker. Já adepto dos “bolachões”, ele considera estar mais fácil comprar discos, mas também mais caro - “por causa do modismo”. Em lojas online, como a Vinil Records, os preços vão de R$ 9,90 a mais de R$ 300.

Jovens. No Mercado do Vinil, realizado a cada dois meses na Rua da Consolação, o público pode ser ainda mais jovem. Segundo Anderson Vital, de 32 anos, um dos organizadores, mais da metade dos frequentadores têm de 18 a 25 anos. 

“Primeiro tem essa coisa da curiosidade. Na feira tem pessoas que nunca viram um disco, outras que viram o pai escutando quando eram crianças.” Colecionador, ele começou a vender vinil há dois anos quando quis trocar alguns álbuns e, na loja, descobriu a grande procura. “Esse nicho nunca parou. Mas, com a chegada de novas vitrolas no País, o pessoal começou a comprar, virou vintage.” 

Para ele, com a derrocada do CD e a popularização do streaming e de músicas em formato digital, parte do público procurou outros jeitos de ouvir música, perceber as nuances do vinil. “Tem a magia de ouvir o disco inteiro. As pessoas viram a importância do disco, enxergaram a durabilidade.”

Serviço

CAVERNA ROCK DISCOS. RUA DOS ANDRADAS, 375 - CJ. 12. DE SEG. A SEXTA, DAS 9H ÀS 17H30, SÁBADO ATÉ AS 14H30

CONCEIÇÃO DISCOS. RUA IMACULADA CONCEIÇÃO, 151 - SANTA CECÍLIA. DE TERÇA-FEIRA A SÁBADO, DAS 10H ÀS 21H

MERCADO DE VINIL. RUA DA CONSOLAÇÃO, 3.423. FEIRA BIMESTRAL

NOIZE RECORD CLUB. noizerecordclub.com.br

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Priscila Mengue, O Estado de São Paulo

25 Março 2018 | 03h00

Atrás de um armazém antigo na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, está instalada uma das duas únicas fabricantes de vinil de todo o País. Nela, uma equipe de 13 funcionários trabalha a partir da produção de duas prensas adquiridas de um ferro-velho há quatro anos. O resultado? O registro de alguns dos trabalhos mais comentados na cena musical, como A Mulher do Fim do Mundo, de Elza Soares, e MM3, do Metá Metá.

Lançada em 2016, a Vinil Brasil surgiu após o músico Michel Nath, de 41 anos, ter dificuldades para lançar seu próprio disco em vinil – SolarSoul, o primeiro e o único –, e perceber que havia uma demanda reprimida. A abertura da fábrica, diz, correu “como rastilho de pólvora” e atraiu do reggae à bossa nova. 

A divulgação do álbum (e a carreira musical) acabou em segundo plano diante dos “perrengues” de empreender pela primeira vez – o que incluiu encontrar profissionais que conhecessem o processo de produção. 

“O ‘know-how quase se foi. Estava em vídeos, livros, mas principalmente em pessoas”, afirma ao se referir, por exemplo, a um funcionário já sexagenário que trabalhou na produção de vinil décadas atrás.

Parte das etapas e das peças necessárias para o processo dar certo precisaram ser criadas pela Vinil Brasil – tanto que ele nem divulga algumas etapas de fabricação. A produção é 100% analógica, com o som transposto do ‘tape’ para o disco. “Aqui a gente lida com questões muito reais. Os discos saem literalmente girando por aí, mexendo com a vida das pessoas.” 

A outra fabricante brasileira é a Polysom, empresa reaberta em 2010 após passar três anos fechada. Em 2017, produziu cerca de 94 mil discos. 

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Priscila Mengue, O Estado de São Paulo

25 Março 2018 | 03h00

2 PERGUNTAS PARA...

 Charles Gavin, músico e apresentador do programa O Som do Brasil, do Canal Brasil

1. O que o vinil tem de diferente? É um som diferente, você pega na mão, é uma relação com a música mais profunda que ouvir um disco streaming. Requer tempo, equipamento. O streaming é meio impessoal, o vinil é uma coisa mais próxima, quase mítica. Tem gente jovem que compra mesmo sem ter toca-discos, os meus sobrinhos deixam expostos no quarto, como obras de arte. No digital não existe capa, tem pouca preocupação com quem toca.

2. O som do vinil é melhor? Nem sempre. O vinil impõe condições para você desfrutar. Mas o som é diferente, porque é analógico. Entre um bom equipamento com computador e um toca-discos mais ou menos, o computador é melhor. Assim como não dá para comparar umas caixinhas de computador com um baita toca-discos, com um vinil de qualidade.

3 PERGUNTAS PARA...

André Gois, radialista da Rádio Eldorado e apresentador do programa A Hora da Vitrola

1. O que o disco de vinil tem de diferente? É uma coisa física. Ele é grande, tem capa grande, você consegue ver os detalhes. Ouvir vinil também é sensorial, não só para os ouvidos, mas também porque você para para ouvir, tira da capa, vê as letras, tem muito mais informações que o CD, por mais que o CD também tenha encarte, essas coisas. Muita gente também fala que tem o som mais encorpado, mais grave, eu particularmente não ligo tanto para isso. Tem uma coisa romântica também, disso, de pôr na agulha. Por mais que esteja em boas condições, você consegui ouvir um chiado às vezes.

2. Está mais fácil comprar vinil? Está mais caro. Não é como antigamente que você conseguia comprar por R$ 10, R$ 20. Hoje o consumo está meio elitizado, mais para colecionador mesmo, não é qualquer um, tem que gostar muito mesmo.

3. Por que o vinil voltou? É uma coisa da vida. Não é só o vinil que voltou. Mas eu não acredito, por exemplo, que a fita de vídeo possa voltar, porque, diferentemente do vinil, ela não mantém a qualidade. O vinil mantém, permite uma alta qualidade. É natural essa volta. E também tem essa coisa romântica. Quando eu era moleque, eu catalogava cada um dos meus discos, com ficha técnica, nome do produtor. Hoje o mais natural seria tirar uma foto, não fazer uma ficha. Além disso, o vinil tem todo um cuidado no armazenamento, não pode ser empilhado, precisa ser em pé, para não empinar e prejudicar o som.

 

 

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