Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Violência é vista como 'normal' por crianças vulneráveis

Resultados de pesquisa realizada em 12 municípios com baixo IDH serão divulgados nesta segunda

Fabiana Cambricoli, O Estado de São Paulo

26 de setembro de 2016 | 03h00

Atualizada às 16h47.

SÃO PAULO - Ter aulas canceladas por causa de um tiroteio já foi realidade para 40% das crianças ou adolescentes que vivem em regiões de baixa renda no País. Apanhar em casa faz parte da rotina de 63% deles. Sofrer violência física ou verbal na escola é comum para 30%. E apesar da ocorrência de conflitos constantes e extremos, menos de 1% desses jovens dizem se sentir altamente inseguros.

Esses são alguns dos resultados de pesquisa realizada pela ONG Visão Mundial e pelo Instituto Igarapé sobre a percepção infanto-juvenil da violência urbana. O estudo, que será divulgado nesta segunda (26), entrevistou 1,4 mil crianças e adolescentes de 8 a 17 anos de 12 cidades brasileiras com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) ou grande número de jovens em situação de vulnerabilidade. Segundo os pesquisadores, os resultados indicam uma tendência preocupante: a violência está tão presente na vida dessas crianças que tem sido vista como algo normal.

“O que nos chamou a atenção é que, embora esses jovens convivam com a violência de forma rotineira, a percepção de insegurança deles é muito baixa. Parte disso ocorre por causa da idade, mas também há uma normatização da violência. É importante que elas percebam que isso não é normal para poder reagir e para que o agressor não perpetue suas ações com a certeza da impunidade”, afirma Karina Lira, assessora de proteção à infância da Visão Mundial Brasil.

A pesquisa indica que os jovens em situação mais vulnerável estão em contato com episódios violentos em todos os ambientes dos quais fazem parte, inclusive em casa. Além dos mais de 60% que relataram apanhar da família, outros 25% dizem presenciar violência física entre outros parentes no ambiente domiciliar. No caso de agressões verbais, o porcentual sobe para 40%.

“Além dos riscos aos quais essas crianças estão expostas, há ainda a chance de elas reproduzirem socialmente essa violência, de entenderem que essa é a melhor forma de resolver um conflito”, diz Karina.

Segundo Robert Muggah, diretor de pesquisa do Instituto Igarapé, há estudos que mostram a ligação entre a ocorrência de episódios de violência na infância e adolescência com maiores chances de desenvolvimento de uma personalidade predisposta a situações de risco, com brigas, uso de armas e consumo de drogas. “A exposição a conflitos chega a provocar mudanças cerebrais que criam uma espécie de vício nessas situações de perigo”, diz.

Medo. Em comunidades pobres das grandes cidades brasileiras, é quase certo encontrar relatos de violência vivida por crianças. “Quando eu tinha uns seis anos, meu tio tomou um monte de tiro e morreu. Na escola já cancelaram as aulas por causa de briga de bandido”, conta Lucas Antonio de Amaral Marinho, de 8 anos, morador de uma comunidade de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e um dos participantes da pesquisa. Seu irmão, Marcos Vinicius de Amaral, de 13 anos, está há uma semana sem ir à escola por medo. “Tem muita briga, os moleques de outro bairro ficam mexendo com quem não é de lá”, conta.

Nos 12 anos que a família mora na comunidade, a doméstica Patrícia de Amaral Alves, de 41 anos, mãe dos meninos, já cansou de ver todo tipo de violência. “É assalto, sequestro, briga de marido e mulher, tiroteio. O nosso maior medo é receber a notícia de que que alguém da família foi baleado”, afirma.

Moradora do Jardim Ângela, bairro pobre da zona sul de São Paulo, a agente de saúde Marina de Almeida Campos, de 34 anos, conhece bem as consequência da violência para a infância tanto na perspectiva de filha como de mãe. “Eu moro há 27 anos aqui, vi muita coisa na comunidade, mas também dentro de casa. Meu pai batia na minha mãe, ameaçava com faca. E foi por ver tanto sofrimento que não quis reproduzir isso”, diz ela. Com os filhos, tenta solucionar os conflitos com conversa. “Se eles fazem algo errado, eu converso e aplico algum castigo, tiro alguma coisa que eles gostam, mas bater é muito complicado, eu evito”, diz.

A opção da mãe não deixa o adolescente Silas Guilber Campos Herculano, de 12 anos, imune a episódios de violência. Todos os fins de semana, ele presencia brigas depois de festas realizadas no bairro. Há alguns anos, teve as aulas suspensas após a professora ser atingida por um tiro de raspão quando saía da escola.

Para Muggah, além de políticas que deem mais oportunidade aos jovens pobres, é preciso falar mais sobre o assunto e mostrar às crianças que a violência não deve ser normatizada. “Primeiro, é importante usar ferramentas pedagógicas nesse debate. Segundo, é importante que figuras públicas, como atletas e atores, se engajem nessa discussão porque eles são ícones para esses jovens”, afirma.

Ele afirma ainda que é necessário um maior preparo da polícia para atuar em regiões mais vulneráveis. A pesquisa mostrou que somente 40% das crianças e adolescentes se sentem seguros com policiais.

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