Violência intimida empresas de ônibus em Campinas

Sob ameaças de usuários que se recusavam a pagar passagem e agrediam regularmente cobradores e motoristas, duas empresas operadoras das quatro linhas de ônibus que atendem a três bairros de Campinas cederam à violência e deixaram de cobrar a tarifa de R$ 1,30 por passageiro. As linhas do Terminal Campo Grande ao Campina Grande (4.54) e do Parque Floresta ao Parque Itajaí (4.55), atendidas pela empresa Morumbi, estão sem cobrança desde fevereiro deste ano. Nas Vida Nova 1 (5.51) e 2 (5.52), da empresa Urca, a passagem deixou de ser cobrada há um ano e meio. "Nesses locais, o motorista virou chofer", disse o gerente de tráfego da Morumbi, Hamilton Dias de Carvalho.As empresas optaram por cancelar a cobrança e remover os cobradores das quatro linhas para reduzir despesas. Mesmo com o cobrador, cerca de 60% dos passageiros se recusava a pagar a tarifa e ameaçava os que insistiam em cobrá-la. Um ex-motorista da linha 4.54 foi espancado na frente de cinco passageiros porque se recusou a levar um "carona". No final de janeiro deste ano, o agressor quis entrar sem pagar pela porta da frente do ônibus, por volta das 18 horas. O motorista não permitiu. Três horas depois, o "carona" esperou o motorista em um ponto, entrou no carro e o agrediu a pauladas, enquanto um comparsa ameaçava os passageiros e o cobrador com uma arma. O condutor teve o braço fraturado e se recusou a voltar a trabalhar na linha. "Ninguém mais quis. Para demitir um funcionário era só mandá-lo fazer o Campina Grande ou o Itajaí. Ele se recusava e falava que preferia ser demitido", disse Carvalho. O gerente contou que o histórico das linhas inclui vários outros casos de agressão e ameaças, como o do motorista que sobreviveu a uma roleta russa feita por "carona" e de outro agredido duas vezes na mesma linha. "Eles ainda os ameaçavam de morte caso avisassem a polícia", comentou o gerente. O prejuízo estimado pela Associação das Empresas de Transportes Urbanos de Campinas (Transurc) nas quatro linhas é de R$ 82,4 mil mensais. O diretor de comunicação da Transurc, Paulo Barddal, explicou que elas somente são mantidas por força de contrato. "Eram casos em que o cobrador servia apenas de enfeite", lamentou. A ausência de cobrança, no entanto, não agradou todos os usuários. O estudante Francisco Petrúcio lembrou que em alguns horários a lotação da linha 4.54 fica "insuportável", os ônibus são velhos e desconfortáveis. "Não podemos reclamar porque é de graça. Preferia pagar e ter um atendimento melhor", disse. "Precisamos de segurança", completou a funcionária pública Ângela Bertelli. O comandante do 35º Batalhão de Polícia Militar de Campinas, coronel Lúcio Ricardo de Oliveira, afirmou desconhecer o problema nos três bairros. Ele comentou que se reúne mensalmente com representantes das empresas e de sindicatos de transportes urbanos, mas nunca foi alertado sobre o problema. "As empresas deviam se preocupar, porque estão criando precedentes. Se a moda pega, vão ter que parar de cobrar na cidade toda. Não cedemos a pressões. Se for preciso, coloco todo o batalhão nesses bairros", garantiu o coronel. Ele lembrou que os assaltos a ônibus em Campinas foram reduzidos em 49,5% no primeiro semestre deste ano, comparado ao anterior. A redução ocorreu porque blitze foram intensificadas e agentes especiais da PM se infiltraram nos ônibus, à paisana, para coibir assaltos e agressões. O comandante explicou que marcou uma reunião amanhã à tarde para discutir o problema e as soluções.

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