Viradouro corre para adaptar carro

Esculturas de cadáveres do Holocausto foram destruídas; alegoria agora representa ?execução do direito de liberdade?

Alexandre Rodrigues, O Estadao de S.Paulo

02 de fevereiro de 2008 | 00h00

A escola de samba Unidos do Viradouro corre para aprontar a tempo o quinto carro alegórico que a agremiação vai levar para a avenida. Depois que uma decisão judicial impediu a escola de desfilar com o carro que representava o Holocausto no enredo É de Arrepiar, a direção da escola decidiu não recorrer. As esculturas de cadáveres que representavam judeus mortos na 2° Guerra Mundial foram destruídas e retiradas do carro. O carnavalesco Paulo Barros, que acompanhou o trabalho com lágrimas nos olhos, decidiu refazer o carro com outro enfoque. Em vez de "arrepio da execução", ele afirmou que a alegoria representará "a execução do direito de liberdade"."A Viradouro vai dar a volta por cima", prometeu Barros, que não teme perder pontos no dia do desfile. Uma grande equipe da escola foi mobilizada para trabalhar na reelaboração do carro, que custara cerca de R$ 400 mil. Depois de uma madrugada inteira de trabalho, o carnavalesco e seus colaboradores passaram o dia todo ontem trabalhando na alegoria. A escola limitou o acesso ao barracão e o carnavalesco não quis dar detalhes sobre o novo carro. Uma errata foi enviada à Liga das Escolas de Samba para substituir a definição do quinto carro da escola na sinopse que será entregue aos jurados."Nem os algozes nem as vítimas da trágica história da humanidade têm o direito de ocultar os fatos, entorpecer a memória. A proibição sumária da expressão artística é o primeiro passo em direção ao precipício: queimar livros, censurar filmes, destruir alegorias. Por trás de toda arbitrariedade, se esconde a mediocridade, a impossibilidade de vencer a força das idéias, e o que resta é dizimá-las", diz o texto de Barros divulgado ontem pela Viradouro. Depois de tentar negociar com a Viradouro uma maneira de apresentar o carro alegórico minimizando os efeitos negativos que a alegoria poderia causar na comunidade judaica, a Federação Israelita do Rio entrou na Justiça para impedir a exibição da alegoria ao descobrir que também estava previsto um destaque no carro fantasiado de Adolf Hitler. O presidente da federação, Sérgio Niskier, reagiu dizendo que, em lugar de respeito, a escola trataria o tema com escárnio se levasse a idéia adiante.Enquanto na Viradouro ainda há trabalho a fazer, no barracão da campeã Beija-Flor é hora apenas de revisar os detalhes e aquecer os tamborins, como fez ontem o intérprete do samba Neguinho da Beija-Flor. Em busca do 11º título, a escola de Nilópolis leva para a avenida a história de Macapá, a capital do Amapá. O abre-alas, o xodó da escola, representa o brilho-de-fogo, uma espécie rara de beija-flor que só tem na região Norte do País. Além do abre-alas, o segundo carro entra na avenida com a intenção de inovar. Todo verde, ele representa a riqueza ecológica de Macapá, com índias, peixes e plantas.

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