Visitas a Abadía e Beira-Mar serão monitoradas, avisa juiz

PF prende 4 e desmantela grupo de extorsão que agia em 3 Estados e tinha apoio até do PCC

João Naves de Oliveira, Vannildo Mendes e Bruno Tavares, O Estado de S. Paulo

05 Agosto 2008 | 08h25

Os quatro chefes do crime organizado que comandavam extorsões de dentro do Presídio Federal de Campo Grande passarão a ser mantidos em regime especial. São eles: Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-mar, o colombiano Juan Carlos Ramírez Abadía, e os assaltantes de bancos, José Reinaldo Girotti e João Paulo Barbosa. Até agora, só Abadía merecia tratamento diferenciado. Eles ficarão em cela especial, terão apenas duas visitas semanais de parentes ou advogados, mas sempre acompanhados por servidores. "E nos banhos de sol não poderão ficar ao lado de detentos de fora do regime diferenciado", adianta o juiz-corregedor Odilon de Oliveira.   Veja também: Em depoimento, Abadía e Beira-Mar permanecem em silêncio Após aviso de 'colaborador', Magno Malta pede proteção policial Diplomacia e barreiras jurídicas empacam estradição de Abadía Eldorado: ouça comentário de Alexandre Garcia    Por volta de 3 horas desta terça-feira, 5, terminaram os depoimentos dos quatro, na Superintendência Regional da Polícia Federal de Campo Grande. Eles foram identificados como líderes de quadrilhas espalhadas por São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Paraguai, que praticam vários crimes, entre os quais seqüestros e tráfico de drogas. A Polícia Federal, não revelou o conteúdo dos depoimentos – que deverá ser divulgado até o final da tarde. Logo após serem ouvidos, foram reconduzidos ao presídio onde cumprirão pena sob regime diferenciado. As prisões aconteceram durante a Operação X, desencadeada pela PF em parceria com o Ministério Público Federal, depois de cinco meses de investigações. A segurança no local foi reforçada.   O endurecimento será adotado depois de que os reis do narcotráfico no Brasil, Fernandinho Beira-Mar, e na Colômbia, Abadía, se uniram aos maiores ladrões de banco do País, mesmo confinados no Presídio Federal de Segurança Máxima de Campo Grande (MS). Juntos, mandaram aterrorizar juízes que atuam nos seus processos e autoridades que têm o poder de atrapalhar negócios milionários fora da prisão, além dos familiares dessas pessoas. O esquema incluía extorsão mediante seqüestro e organização de assaltos, mas os nomes das autoridades e alguns dados do esquema foram mantidos em sigilo por ordem judicial e por segurança.   Com capacidade para 208 presos, em celas individuais, a penitenciária federal era considerada uma fortaleza imune a rebeliões, fugas e ações criminosas. Dotada de infra-estrutura e equipamentos de segurança de última geração, como aparelhos de raio X, tem coleta de impressão digital e detectores de metais de alta sensibilidade, aos quais até os advogados são submetidos. O fato de praticamente não haver contato físico entre detentos era considerado outro ponto que tornava a organização do crime impossível.   Mas Oliveira ressalta que Fernandinho Beira-Mar sempre comandou crimes, incluindo seqüestros, de dentro de presídios. "São as visitas que recebe. Esse é o meio de contato dele com as quadrilhas que comanda no Brasil e no Paraguai." Advogado de Abadía e Beira-Mar, Luiz Gustavo Bataglin Maciel, negou que os dois tenham qualquer contato. "Eles não se conhecem", disse. Maciel falou ainda que só soube de um suposto plano de fuga que teria sido abortado na segunda - a PF nega que isso tenha ocorrido.   De acordo com a Polícia Federal (PF), os dois usaram os advogados e familiares de grupos criminosos diversos, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC). As ações ocorreriam em São Paulo, Rio e Mato Grosso do Sul. O plano foi descoberto pela Inteligência da PF, que desencadeou ontem a Operação X e prendeu quatro pessoas.   Ivana Pereira de Sá, de 43 anos, foi detida quando visitava o ex-marido, Beira-Mar, na prisão. Em Nova Andradina (MS), a PF prendeu Leonice de Oliveira, de 35, e Leandro Oliveira dos Santos, de 18, familiares de João Paulo Barbosa, de 27. Um dos responsáveis pela execução do roubo ao Banco Central de Fortaleza (CE), em 2005, Barbosa era um dos que cediam "laranjas" ao esquema.   Em São Paulo, segundo a PF, foi detida outra peça-chave, o advogado Vladimir Búlgaro, defensor de José Reinaldo Girotti, o Alemão, um dos maiores financiadores de grupos criminosos do País, incluindo o PCC, também preso em Campo Grande. Para contornar a segurança máxima da cadeia federal, Beira-Mar e Abadía tiveram a idéia de compartilhar advogados e familiares de outros presos como "soldados". Contaram, para isso, com a assessoria de Alemão e do advogado Búlgaro. Foragido da Justiça havia cinco anos, Alemão era o primeiro na lista de procurados pela PF. Ele foi preso em 2006, em Londrina (PR), e transferido para Campo Grande no fim de 2007.   Segundo a Inteligência da corporação, Alemão é exímio planejador de assaltos a bancos e teria arquitetado o ataque ao BC - o maior já feito no País. Dependendo da ação, ele formava um grupo e recrutava os "soldados do crime" - como teria ocorrido no caso atual. Uma das marcas de suas ações consistia exatamente em seqüestrar familiares de gerentes de bancos e de empresas de segurança, antes dos roubos.   A identificação do bando preso na segunda ocorreu a partir de investigações iniciadas em abril, quando um atentado contra o presídio federal foi feito, visando à libertação dos chefes criminosos. Na ocasião, desconhecidos dispararam vários tiros com armas de grosso calibre contra a segurança. O caso levou a PF, uma semana depois, a formar a Operação X - que teria escutas com autorização judicial, além de investigação.   Estados Unidos   A participação de Abadía na Operação X deve ampliar no governo as pressões para que seja extraditado para os Estados Unidos, onde responde por lavagem de dinheiro, tráfico e homicídio. Mas isso não deve acontecer logo. No dia 13 de março, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a medida. A decisão foi unânime, mas o Supremo impôs uma condição ao governo americano: uma possível condenação por prisão perpétua ou pena de morte deve ser convertida em simples prisão com prazo máximo de 30 anos, maior punição prevista na legislação brasileira. Os Estados Unidos, porém, ainda não fizeram nenhum sinal de que aceitarão.   Os principais alvos da PF   Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar: é apontado como um dos maiores traficantes de armas e drogas da América Latina. Após escapar da prisão e permanecer quatro anos foragido, foi recapturado na Colômbia e extraditado para o Brasil em abril de 2001. Suas condenações, a maioria por tráfico e associação para o tráfico de drogas, somam 67 anos.   Juan Carlos Ramirez Abadía, o Chupeta: é um dos principais líderes do Cartel Norte do Vale, na Colômbia. Em agosto de 2007, foi preso pela Operação Farrapos da Polícia Federal num condomínio fechado em Aldeia da Serra, na Grande São Paulo. Em abril, foi condenado a 30 anos de prisão pela Justiça Federal em São Paulo por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, entre outros crimes. O Supremo Tribunal Federal (STF) já concedeu a extradição dele para os Estados Unidos.   José Reinaldo Girotti, o Alemão: nascido em Brotas, interior de São Paulo, tem em sua ficha criminal o roubo à transportadora de valores Preserve, o assalto ao Banco Regional de Brasília e ao Banco Central de Fortaleza, ataques a prédios de luxo, setor de penhores da Caixa Econômica Federal e joalherias.   Vladimir Búlgaro: advogado paulista, atuava como defensor de José Reinaldo Girotti. Foi preso em São Paulo e levado para a carceragem da PF.

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