Vítima de acidente afirma que ônibus estava sem freio

O estudante Wagner Waldir de Oliveira ouviu alguns dos seus amigos gritarem: "Estamos sem freio". Foi neste momento que começou a drama de Oliveira e de outros 42 ocupantes do ônibus que ficou desgovernado e caiu numa ribanceira na divisa dos estados de São Paulo e Minas Gerais, por volta 0h30 de hoje. No acidente morreram 19 estudantes e o motorista e outros 23 ficaram feridos, a maioria em estado grave. Todos são da cidade mineira de Sacramento.Oliveira contou que foi o primeiro a conseguir sair do que sobrou do ônibus e pedir ajuda. "Tive que me agarrar no mato e arrastar para conseguir subir o morro e chegar até a pista", contou. Segundo ele, já na ida para Franca o veículo apresentou problemas. "A roda traseira travou e o motorista soltou os freios, mas não imaginávamos que poderia piorar tanto. Na volta, quando chegou na serra, ele (motorista) não disse nada e o ônibus começou a ganhar velocidade. ?Os estudantes que estavam na frente alertaram que estávamos sem freio. Em seguida, ficamos em silêncio e cada um tentou se proteger como podia. Foi terrível", relembrou. Oliveira, ainda assustado, falou que vai conversar com a família e pensar muito para retornar aos estudos em Franca. "Hoje o sentimento é de que não quero mais viajar", finalizou.O ônibus Scânia, placas BWT-5902 de Sacramento-MG, pertencente à empresa Sacratur, de propriedade de Inácio Rosa dos Santo, 52 anos, que era o motorista e faleceu no local. Segundo a Polícia Rodoviária de Pedregulho-SP, o ônibus ficou desgovernado, arrebentou uma defensa de concreto e caiu numa ribanceira de aproximadamente 30 metros, ficando totalmente destruído e mutilando vários corpos. O acidente com o ônibus de estudantes aconteceu no KM 459 da rodovia Candido Portinari, município de Rifaina-SP, região de Ribeirão Preto, por volta das 23h45, no trecho conhecido como "curva da morte". Nos últimos 10 anos, 70 pessoas perderam a vida nesse trecho.Enterro coletivoOs estudantes tinham entre 20 e 25 anos de idade e viajavam diariamente para Franca - distante 110 KM - para cursar faculdades e escolas de 2º grau. Para o salvamento e resgate das vítimas, ambulâncias de todas as cidades da região foram deslocadas para o local. A maioria dos feridos precisou ser içada em pranchas, puxadas por uma corda, porque os veículos que tentavam descer à pastagem existente na ribanceira ficavam atolados. Os 23 feridos foram levados para hospitais de Pedregulho, Franca e Sacramento. Os corpos dos 20 mortos foram para o Instituto Médico Legal (IML) de Franca e liberados às 11 horas. Seis deles foram velados no Ginásio Poliesportivo de Sacramento. O restante, nas residências das famílias. O enterro foi coletivo, no cemitério municipal.Parou tudoA notícia do acidente espalhou rápido entre os 23 mil habitantes de Sacramento, que teve a madrugada mais triste e conturbada de sua história. O prefeito, Nobuhiro Karashina (PT), decretou feriado municipal e o comércio fechou as portas. "Não há o que fazer para confortar a população", disse Cristiano Ribeiro, secretário de Planejamento da Prefeitura. Segundo ele, no município cinco ônibus rodam diariamente levando estudantes para Franca, Araxá e Uberaba. "Regularmente fazemos uma fiscalização nesses veículos e dificilmente encontramos qualquer irregularidade", comentou.O comerciante, Walmor Julio Silva, não conseguia explicar o que estava sentindo. "Aqui é muito pequeno e todos se conhecem. Sinto como se um filho meu também estivesse naquele ônibus", lamentou. Para ele, foi uma fatalidade "que jamais iremos esquecer". O locutor de rodeios, Robson Quirino, disse que nunca viu uma comoção tão grande. "Parou tudo. O clima não poderia ser mais triste".Situação semelhante os habitantes de Sacramento viveram em 1971, quando dois caminhões das empreiteiras Nativa e Mendes Júnior chocaram-se, matando 14 trabalhadores que construíam a Usina Hidrelétrica de Jaguará. Este acidente aconteceu na mesma estrada, mas do lado mineiro.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.