Vítima de seqüestro relâmpago é morta por PMs após perseguição

No volante, ladrão atirou contra viatura e houve revide; imagens mostram corpos sendo arrastados pelo asfalto

Talita Figueiredo, RIO, O Estadao de S.Paulo

16 de julho de 2008 | 00h00

Policiais militares mataram por engano o administrador de empresas Luiz Carlos Soares da Costa, de 35 anos, momentos depois de ele ser feito refém por um assaltante que roubou seu Siena em Bonsucesso, zona norte do Rio, às 21 horas de anteontem. O carro era dirigido pelo assaltante Jefferson dos Santos Leal, que completou 18 anos há 12 dias, e foi perseguido por três cabos e um soldado do 22º Batalhão, que desconfiaram da atitude do motorista.Segundo os militares, Leal disparou contra os policiais e eles revidaram. O assaltante foi atingido por um tiro nas costas e o administrador acabou baleado três vezes. Foi o terceiro caso de morte de um inocente por um PM em serviço no Rio, em apenas 17 dias: no dia 7, o menino João Roberto Amorim Soares, de 3 anos, morreu após o carro em que estava com sua mãe receber mais de 15 tiros de soldados que confundiram o veículo com o de ladrões; no dia 28 de junho, um militar que fazia a segurança do filho de uma promotora matou o estudante Daniel Duque, de 18 anos, na saída de uma boate em Ipanema.Segundo o delegado José de Moraes Ferreira, que investiga o caso, os PMs Vander de Oliveira Ache Júnior, Alexandre Cid Carvalho, Luiz Otávio Vieira Barbosa e Jairo Jair Callado Sette agiram em legítima defesa. "Mas todas as hipóteses serão investigadas."Imagens do SBT, gravadas minutos depois do suposto confronto de segunda-feira, mostram os PMs dos dois lados do carro, mas uma arma no chão do lado do passageiro (a vítima). Na seqüência, os dois homens são retirados do veículo e arrastados pelas pernas no asfalto da Avenida Brasil, antes de serem colocados em uma ambulância e levados para o Hospital Geral de Bonsucesso.Na unidade, Leal foi operado e passa bem. Costa já chegou morto ao centro médico. Durante o dia, parentes reclamaram à imprensa de que os policiais teriam dito aos médicos para "não terem pressa" no atendimento, uma vez que as vítimas seriam criminosos. Ninguém da polícia ou do hospital confirmou essa informação. Funcionário do Infoglobo (empresa que edita os jornais O Globo e Extra), o administrador voltava da academia de ginástica que freqüentava em Bonsucesso e seguia para casa, no Caxambi, quando foi abordado pelo assaltante em um sinal de trânsito na Avenida Leopoldo Bulhões, próximo de um dos acessos à Linha Amarela. Leal o fez passar para o banco do carona e passou a dirigir o Siena. Mais à frente, policiais militares desconfiaram da atitude do motorista, que disparou em fuga quando percebeu a aproximação da viatura. A partir daí iniciou-se uma perseguição. Os policiais afirmaram não saber que havia um refém no carro.Já na Avenida Brasil, próximo da Rua Bela, o assaltante teria começado a disparar contra os soldados, que revidaram. A perícia feita no Siena identificou dez perfurações no veículo. Na viatura, havia duas perfurações no pára-choque dianteiro.O delegado responsável pela investigação, José de Moraes Ferreira, solicitou ao SBT as imagens gravadas pela equipe de reportagem que passava pelo local no momento do crime. Um posto de gasolina que fica na esquina da Rua Bela também teria imagens do circuito de segurança. Ferreira já pediu que os funcionários do posto compareçam à delegacia e levem as imagens. Três fuzis usados pelos PMs foram entregues ao delegado, assim como a pistola do assaltante. "Os policiais entregaram as armas que disseram ter usado", disse Ferreira. No entanto, peritos que analisaram o Siena disseram que na traseira havia tiros de pistola. O delegado afirmou que, depois de receber o laudo da perícia, poderá solicitar outras armas dos policiais.

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