Vítima não reconhece réu. E ele é condenado

Porteiro, que alega inocência, terá de ficar três anos preso

Laura Diniz, O Estadao de S.Paulo

05 de setembro de 2008 | 00h00

O porteiro Robson Nunes, de 28 anos, está preso há quase seis meses e já teve dois pedidos de liberdade negados pela Justiça. Ele foi condenado, no dia 20 de agosto, a três anos de prisão em regime fechado por tentativa de assalto. Seria uma história banal, das tantas que lotam as prateleiras dos cartórios dos fóruns brasileiros, não fosse o fato de que a vítima não o reconhece como autor do crime. Nunes insiste que é inocente desde que foi preso.Nunes conta que voltava do trabalho por volta de 19h30 do dia 8 de março deste ano, quando foi parado e detido por policiais militares. O vigia Cesar Oliveira Santana foi levado ao local por uma viatura. Ele havia sido vítima, minutos antes, de uma tentativa de roubo à mão armada por parte de dois homens - um deles usava bermuda vermelha, assim como o porteiro. Santana declarou à polícia que os dois bandidos portavam armas. Nada foi encontrado com Nunes - e ele estava sozinho. De dentro da viatura, questionado por PMs, Santana disse ter reconhecido o porteiro.Diante da juíza Maria Priscilla Ernandes Veiga Oliveira, Santana disse que não foi Nunes o homem que tentou assaltar a empresa onde trabalha. "(O porteiro reconhecido na viatura) é a mesma pessoa que mostrei para o senhor hoje, o senhor não consegue reconhecer por quê?", perguntou a juíza ao vigia. "Não é ele, não é essa pessoa que vi aí." "Na viatura estava tumultuado, escuro?", indagou Maria Priscilla. "Tumultuado e um pouco escuro." "Não conseguiu ver direito na viatura?", insistiu a juíza. "Não consegui ver direito."A declaração de Santana contradiz o auto de reconhecimento de pessoa, lavrado pela polícia no dia em que Nunes foi preso. No documento, está escrito que Nunes foi reconhecido "em local onde se encontravam várias pessoas, e entre elas o preso".Nada foi suficiente para livrá-lo da cadeia. Na primeira negativa de liberdade, Maria Priscilla justificou haver indícios suficientes de ter sido Nunes o autor do crime. Na segunda, o desembargador Eduardo Antônio di Rissio Barbosa afirmou que não havia circunstâncias que autorizassem a liberação do porteiro. Na sentença, a juíza disse que a vítima não reconheceu Nunes no Fórum porque teve medo - a afirmação foi feita com base em sua observação, já que nada foi dito pela vítima.O último recurso foi protocolado pelo defensor público Adenor Ferreira da Silva, que soube do caso por meio de amigos e se solidarizou. "Sinto um desalento total. Vivemos ainda na pré-história. Não há civilização." Os bons antecedentes, o trabalho fixo e as declarações de boa índole em favor de Nunes não foram considerados. A família de Nunes está desolada. "Ele está inocente no meio daquele monte de homem", lamentou a dona de casa Maria Oliveira Silva, de 55 anos, mãe do rapaz. Segundo ela, o filho trabalha, estuda, é religioso e nunca criou problemas para a família. O pedreiro Augusto Nunes, de 53 anos, pai do porteiro, diz não ter coragem de visitá-lo na cadeia. "É muito sofrimento." Segundo ele, Nunes voltava do trabalho para fazer um show em um bar perto da casa da família. "O negócio dele só é samba. Ele canta e toca." A juíza e o desembargador foram procurados, mas não atenderam aos pedidos de entrevista da reportagem.

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