Vítimas de Andinho falam sobre seqüestro

As irmãs Rosana Batagin, de 53 anos, e Sônia Zabani, de 43, perceberam que havia alguma coisa errada quando passara a ouvir a televisão ligada ininterruptamente em um programa que noticiava a prisão de Wanderson Nilton de Paula Lima, o seqüestrador Andinho. Em Americana, a família das duas seqüestradas começava a viver dias de desespero. O último contato dos seqüestradores de Rosana e Sônia com a família havia sido feito no sábado, dois dias antes da prisão de Andinho. Até então, a tevê apenas era usada quando os seqüestradores queriam conversar com as irmãs, no quarto que ocupavam, no segundo dos três cativeiros para os quais foram levadas nos 24 dias em que permaneceram em poder dos criminosos. Elas ficaram em quartos fechados, sem luz, e sem nenhuma comunicação com o exterior, a não ser a porta que os seqüestradores usavam para entrar no cômodo. Um ventilador era usado para diminuir o calor do quarto e foi comprado depois que elas já estavam no cativeiro. Hipertensa e asmática, Rosana foi a mais afetada. Mesmo assim, teve seu suprimento de remédios garantido pelos bandidos. Na tarde de hoje, as irmãs falaram sobre o drama que viveram no último mês. Rosana falou pouco e se recolheu em seguida. Sônia estava mais tranqüila, apesar de cansada. Disse que a primeira coisa que pediu, ao chegar em casa, foi pão com manteiga e café. "Sonhava com isso no cativeiro", contou. Hoje de madrugada, as irmãs foram recebidas por pelo menos 80 pessoas entre amigos e parentes. Dormiram por volta das nove horas, depois de muitos sedativos. "Os remédios não faziam efeito", disse Sônia. Nesta tarde os parentes se reuniram para o almoço, quando as irmãs receberam a imprensa. Sônia afirmou que em nenhum momento elas foram maltratadas. Comiam irregularmente e tomavam banho a cada quatro dias. "Tinha dias em que eles levavam só bolacha e água, em outros, levavam comida e refrigerante", comentou. As seqüestradas passaram 15 dias no primeiro cativeiro e nove no segundo. "No segundo era melhor, tínhamos três refeições por dia, e comida bem feita", disse Sônia. No terceiro cativeiro, em um quarto repleto de brinquedos de criança, ficaram apenas uma hora, antes de serem levadas até a mata onde foram encontradas, em Bragança Paulista. "Mexi-me muito amarrada à arvore, que era para que nos víssemos no meio do mato, estou toda dolorida. A próxima coisa que vou fazer será uma massagem", explicou. Sônia, que mora em Ohio, nos Estados Unidos, e estava com o marido Fábio Zabani passando férias na casa da irmã, afirma que em nenhum momento soube que havia sido seqüestrada pela quadrilha de Andinho. Sempre havia dois homens no cativeiro, mas eles somente apareciam de máscara e falavam baixo. Alguns eram agressivos. Um deles chegou a transmitir segurança para Sônia, e a chamava pelo nome. Elas não podiam olhar para eles e evitavam chamá-los para usar o banheiro. Conta que não ouviram nomes ou viram qualquer coisa que pudesse identificar os bandidos e os cativeiros. Mas estranharam quando a televisão ficou ligada em um telejornal mais tempo que o usual. "Eles não se importaram em nos deixar ouvir a notícia da prisão de Andinho. Aí achamos que alguma coisa pudesse estar errada", afirmou Sônia. Mesmo assim, ela conta que não perderam a esperança de sair com vida do episódio, e só souberam que tinham sido seqüestradas pela quadrilha de Andinho quando foram libertadas. Sônia contou que não sabe se chegou a falar com o seqüestrador no cativeiro. "Espero que não", disse. Garantiu que não houve tortura e que agora irá retomar sua rotina. Volta para os Estados Unidos na semana que vem, depois de depor na polícia. "Agora só quero esquecer", resumiu. A família de Rosana ainda não sabe se continuará morando em Americana. O marido dela, Dércio Batagin, disse que se recusa a sair do Brasil. "O País está assim por covardia da população. É preciso mudar o Brasil". Por problemas de saúde, ele não participou das negociações, encabeçadas pelo marido de Sônia. A família afirmou que pediu para que a polícia se mantivesse afastada do caso até o final do seqüestro. Não houve pagamento de resgate. Ninguém quis falar em valores. "A polícia nos ajudou muito a encontrar nossas mulheres, a de Campinas e a de São Paulo", afirmou Fábio. Durante os 24 dias, foram feitas entre 8 e 10 contatos da quadrilha com o marido de Sônia. Em um deles, ela chegou a falar com Fábio. Rosana Melotti Um familiar de Sônia e Rosana contou ao Estado que em uma das ameaças dos seqüestradores contra as duas irmãs, um deles falou que ia matá-las na porta de casa. Que já tinha feito isso uma vez e faria de novo. Sônia preferiu não entrar em detalhes sobre o assunto. Depois de hesitar por alguns minutos, afirmou: "Ele não disse isso diretamente para mim". A ameaça pode indicar que a quadrilha de Andinho também é responsável pelo seqüestro e morte de Rosana Melotti, assassinada com três tiros de fuzil na frente de sua casa, no bairro Parque do Taquaral. Até hoje a polícia desconhece o motivo do assassinato. Andinho afirmou à polícia de São Paulo que não é responsável por esse seqüestro. Sônia confirmou que elas foram ameaçadas de morte várias vezes. Segundo ela, um dos seqüestradores aparentava ser mais violento, porque era o que mais ameaçava. A seqüestrada sabia da morte de Rosana, leu a notícia quando ainda estava nos Estados Unidos, e ficou amedrontada com a possibilidade. "Mas sabia que ia dar tudo certo", garantiu.

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