Vítimas de violência tentam se eleger

Ao lado de ex-policiais e de militares como Conte Lopes, nova 'bancada da segurança' pode ter pais que tiveram seus filhos assassinados

Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

"Minha luta é para que o que aconteceu com minha filha não aconteça com os seus filhos", diz no horário eleitoral gratuito o advogado Ari Friedenbach, candidato a deputado federal pelo PPS em São Paulo. Keiko Ota aparece em sua propaganda eleitoral ao lado do marido, Masataka, vestindo camisetas com a foto de seu filho, Ives. "Por justiça e pelo fim da impunidade, vote Ota, deputada federal", ela diz. Ari Friedenbach e Keiko Ota podem integrar a nova "bancada da segurança" da Câmara, composta por vítimas de violência.

A filha Friedenbach, Liana, foi torturada e morta aos 16 anos, com o namorado Felipe Caffé, em 2003, por um grupo liderado pelo adolescente "Champinha". Ives Ota foi sequestrado e morto com dois tiros no rosto, quando tinha 8 anos.

Diferentemente da chamada "bancada da bala", integrada por candidatos como Conte Lopes, um dos criadores da Rota, e ex-policiais e militares, os candidatos vítimas de violência não têm plataformas tão radicais ou populistas de combate ao crime. Mas pregam endurecimento das leis e apostam no apelo emocional. A principal proposta de Friedenbach é a "responsabilização de todo menor que comete crime hediondo".

Ele quer que o criminoso de qualquer idade responda como adulto, desde que se prove, por avaliação psicológica, que tinha consciência de seu crime. Já Keiko Ota quer aumento da pena máxima para crime hediondo para 100 anos. Os assassinos de seu filho foram condenados a 43 anos de prisão, mas foram soltos depois de 6 anos, por causa do regime de progressão penal.

Maria do Socorro Souza Braga, cientista política da Universidade Federal de São Carlos, compara a emergência dos candidatos vítimas de violência à proliferação de empresários tentando se eleger. "Muitos empresários saem candidatos por questionarem a capacidade dos políticos de resolver seus problemas. Os setores mais afetados pela violência também se candidatam porque não veem eficiência na resolução de crimes", diz. "Além disso, a questão da segurança foi encampada pelo eleitorado no País inteiro e os envolvidos nos casos têm maior apelo emocional."

Friedenbach acha que os candidatos "vítimas de violência" são bastante diferentes da chamada bancada da bala. "Nós, que fomos vítimas, temos uma postura mais humana, eu defendo sistema carcerário mais justo, não pena de morte."

O fenômeno não se restringe a São Paulo. No Paraná, Arlete Caramês é candidata a deputada federal e se identifica como "Mãe do Guilherme". Guilherme Caramês Tiburtius, então com 8 anos desapareceu em 1991, enquanto brincava em frente de casa. Mesmo enfrentando algumas críticas, ela faz questão de mencioná-lo em sua campanha. "Acho que estou sendo honesta, porque foi o desaparecimento dele que me colocou na política."

Em Belo Horizonte, a cientista social Jocélia Brandão teve a filha sequestrada e assassinada em 1992. Agora, resolveu transformar os 18 anos de luta em plataforma política - é candidata a deputada estadual pelo PTB.

Jocélia é mãe de Míriam Brandão, sequestrada aos 5 anos em Belo Horizonte. O caso comoveu o País ao ser revelado, quase um mês após o sequestro, que no primeiro dia a menina já havia sido assassinada. Míriam teve o corpo queimado em meio a pneus e os restos mortais foram enterrados no quintal dos criminosos. Mesmo assim, os sequestradores passaram 22 dias tentando extorquir a família como se a criança estivesse viva, até a farsa ser descoberta. / COLABORARAM EVANDRO FADEL, MARCELO PORTELA e IVAN FÁVERO

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