Viúva de jornalista pede proteção à Anistia

Katia Camargo diz se sentir insegura na cidade onde o marido, Luiz Carlos Barbon Filho, foi morto em 2007; entidade acionou o Ministério da Justiça

Brás Henrique, RIBEIRÃO PRETO, O Estadao de S.Paulo

12 de dezembro de 2008 | 00h00

Katia Rosa Camargo, viúva de Luiz Carlos Barbon Filho, que atuava na imprensa de Porto Ferreira, na região de Ribeirão Preto, está com medo, se sente perseguida e quer "sumir" da cidade onde nasceu. Desde a morte do companheiro, em maio de 2007, crime ocorrido num bar, ela não se sente segura. Quatro policiais militares e um comerciante são acusados do crime e ela enviou uma carta à Anistia Internacional, que pediu proteção ao ministro da Justiça, Tarso Genro.Sem emprego há um mês, Katia sente-se insegura onde está. "Estava com medo, vi carros estranhos parando em frente à minha casa, durante a madrugada, um Gol branco sem placa e outro escuro que não sei o modelo, várias vezes, por isso enviei e-mail à Anistia Internacional", afirmou ela. Não se expôs para tentar identificar quem estaria no veículo, tampouco acredita na polícia da cidade, já que integrantes da corporação são os principais acusados da morte de Barbon. O jornalista era polêmico e atuava na mídia local fazendo denúncias contra a administração pública e também contra policiais militares (por prevaricação e até por não inibirem contrabando de cigarros). Sua morte teria sido uma represália.Apesar de não ter sido o primeiro a divulgar o caso, em agosto de 2003, Barbon foi o mais crítico e enfático, no município, durante as investigações de corrupção de meninas, praticada por políticos e empresários, durante orgias em ranchos. Vereadores e um garçom foram condenados e já cumpriram suas penas, mas alguns ainda lutam para limpar seus nomes.As denúncias de Barbon contra os PMs ocorreram pouco antes de sua morte. "Ele só denunciava com provas", afirma a viúva. Possíveis provas e outras denúncias, que estariam numa pasta, desapareceram. "Ele confiou a pasta a alguém, não sei quem, um ou dois dias antes do crime, e essa pasta deve ter sido roubada", emenda ela. O marido havia feito denúncias contra PMs (inclusive à corregedoria), empresários e até políticos, em diversas situações. Ele foi assassinado com dois tiros por dois homens que estavam numa moto, em frente de um bar, no centro de Porto Ferreira. ROTINA DE MEDOPor causa do medo, Katia só percorre curtos trajetos, assim como os dois filhos - Carla, de 15 anos, e Luiz Felipe, de 11 - apenas vão da escola para casa. "Minha filha quer passear, mas, sem alguém com ela, não deixo."Katia e os filhos continuam morando na mesma casa, pois ela não tinha condições financeiras para mudar. "Não tinha mais renda, só o meu salário de R$ 500 de secretária de uma emissora de rádio." Após quatro meses afastada do serviço para cuidar de depressão, foi demitida. Katia se sente perseguida, até porque o radialista João dos Reis, que atuava em outra rádio e tinha contatos com Barbon, além de ter continuado algumas reportagens policiais do amigo, também foi demitido. E no mesmo dia que ela. "Fiquei isolada." Katia tem algumas suspeitas sobre a morte do marido, mas não pode provar. Na próxima semana, Katia deverá ter orientações de como entrar no programa de proteção à testemunha, até o final do processo que investiga a morte do marido. O advogado Ricardo Ramos não acredita que Katia consiga preencher todos os requisitos necessários. "É algo de ordem particular, mas a preveni de que teria de mudar tudo: nome, cidade, documentos", disse Ramos. A possível transferência do júri do caso para outro município tornaria mais tranqüila a situação, acredita Ramos. "Isso mudaria tudo."

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